





Em A Última Casa, a família Delgado descobre que todas as portas e janelas da casa em que vivem foram trancadas por uma força invisível. E isso aconteceu no bairro inteiro. Ou seja, os quatro integrantes da família — Ann (Greta Lee), Jason (Wagner Moura) e os filhos, Graham (Noah Alexander Sosnowski e Gabriel Barbosa) e Ruth (Riley Chung e Emma Ho) — estão presos do lado de dentro. Lá fora, há uma chuva incessante e misteriosas silhuetas inexplicáveis.
Mas, afinal de contas, o que exatamente está mantendo a família presa? Por que Ruth é a primeira a conseguir entender as criaturas? Por que elas poupam justamente essa família? E quem diz aquele misterioso “Alô” bem no final?

O diretor Louis Leterrier, os protagonistas Wagner Moura e Greta Lee, bem como a equipe criativa do filme, explicam tudo: a mitologia por trás da imagem do mar, os efeitos responsáveis pela inundação ao final e muito mais. Ah, e você também vai desvendar o significado da “pesca de chaminé”.
Fique com a gente e descubra respostas surpreendentes para as perguntas igualmente surpreendentes que devem estar passando pela sua cabeça depois de A Última Casa.
Talvez você tenha achado que as forças que mantinham as pessoas presas em suas casas eram extraterrestres. Mas, de acordo com Louis, na verdade são antigos habitantes dos mares que vivem na Terra há muito mais tempo do que a humanidade. Depois que os humanos começaram a consumir demais, poluir o meio ambiente e aumentar a temperatura global, fazendo os mares entrarem em ebulição, as criaturas resolveram sair das profundezas.

Louis e o diretor de arte Kevin Jenkins queriam que as criaturas fossem misteriosas, sem nenhuma semelhança com animais marinhos já conhecidos. Kevin criou o design bem rápido, por acaso, com base no segundo rascunho que ele enviou ao diretor. “Às vezes, a gente faz mil desenhos e não encontra o ideal. Esse surgiu depois de apenas dois ou três", diz. O resultado foi uma criatura fluida, capaz de se apoiar em seus tentáculos de tal modo que lembra uma bailarina, com duas pernas e uma cauda esvoaçante.

Louis e Kevin queriam que as criaturas tivessem uma aura de mistério e que o próprio público preenchesse as lacunas. Para isso, eles se inspiraram em filmes de monstros como Tubarão, Alien: O 8º Passageiro e O Enigma de Outro Mundo. A ideia era que os espectadores vislumbrassem as criaturas sem decifrar completamente o que estava em cena. “Quanto mais a gente mostra, mais decepcionante pode ser”, comenta Kevin.
Para tornar esses vislumbres mais reais, a produção desenvolveu uma criatura de silicone para usar dentro da casa inundada. “Sabíamos que a criatura ficaria em um tanque. Então, em uma das primeiras conversas que eu e Louis tivemos, já definimos que queríamos criar um monstro que fosse prático para as equipes”, conta Kevin. O traje era pesado e o marionetista precisava se movimentar dentro de cômodos apertados e claustrofóbicos, sem perder a elegância. Depois, alguns efeitos visuais foram usados para aprimorar o resultado final.
Isso também significa que o filme não é bem uma história de invasão. “O público acha que é um filme de invasão, mas depois percebe que os humanos é que invadiram o território”, explica Louis. As criaturas não vieram conquistar o mundo que pertence à humanidade. Elas querem recuperar o próprio mundo e, além disso, estão mostrando aos humanos que é essencial aprender a compartilhar.

A família Delgado fica presa dentro da própria casa por mais de cinco anos. A revelação acontece de repente: após acompanhar as dificuldades da família durante os primeiros meses de confinamento, o filme dá um salto no tempo. Louis descreve essa parte do roteiro como “genial”: serviu de inspiração para que ele passasse do filme de 35 mm para um formato digital, amplificando a tensão.
Todas as outras partes da produção precisavam refletir essa passagem do tempo. Para dar uma sensação física, Kevin e sua equipe projetaram primeiro a casa em sua condição final, após os cinco anos. Depois, trabalharam de trás para frente, sabendo que, eventualmente, ela teria que ser inundada e transformada de inúmeras outras formas.
Nas primeiras partes do filme, as mudanças são sutis: mais vegetação, superfícies desgastadas e pequenos buracos feitos por Jason em busca de recursos. No quinto ano, quase todas as partes da casa foram metodicamente reaproveitadas ou reutilizadas. As paredes, o piso e os móveis carregam traços que evidenciam milhares de decisões desesperadas para garantir a sobrevivência.

Embora o cenário tenha sido projetado de trás para frente, a maior parte da produção foi filmada em ordem cronológica, permitindo que os atores vivenciassem a transformação junto com seus personagens. Ao relembrar a sensação de explorar a versão desgastada da casa pela primeira vez, Greta destaca: “O que eles conseguiram fazer foi realmente impressionante. Para nós, como atores, era essencial sentir que a casa tinha envelhecido junto com a gente.”
Os atores Noah Alexander Sosnowski e Riley Chung interpretam Graham e Ruth no início do desastre, e Gabriel Barbosa e Emma Ho assumem os papéis depois do salto temporal. “Houve um momento em que tivemos que nos despedir de Riley e Noah e dar as boas-vindas a Gabriel e Emma”, relembra Wagner. Enquanto isso, os atores adultos precisaram adaptar a atuação para refletir a fome prolongada, o esgotamento e o desgaste psicológico de criar filhos em um mundo com cada vez menos recursos.

É tudo graças à chaminé. À medida que a estrutura da casa da família Delgado se deteriora, a tampa da chaminé se solta e cai, criando uma pequena abertura na barreira até então impenetrável. Não é um buraco grande o suficiente para escapar, mas Kevin diz que é “uma pequena brecha na armadura” e a família aprende a tirar proveito dela.
Jason usa a abertura para construir armadilhas e capturar animais. No set, esse sistema era chamado de “pesca de chaminé” e, juntamente com outros sistemas improvisados de coleta de água, é responsável por alimentar a rede de canos usada para irrigar as plantações que crescem dentro da casa. Quase tudo ao redor deles é reaproveitado: peças de bicicleta, aspiradores de pó, roupas, móveis e utensílios de cozinha. Louis descreve a casa transformada como uma espécie de bote salva-vidas. Ali, Jason caça e constrói enquanto Ann cultiva alimentos e encontra novas e criativas formas de usar os recursos cada vez mais escassos da família.

A consultora de sobrevivência Megan Hine ajudou a embasar essas ideias na realidade, colocando o foco nas necessidades mais básicas da família: abrigo, água, comida, fogo e sono. “Pensar fora da caixinha é muito importante em situações de sobrevivência”, comenta ela. A chaminé é realmente muito importante para a família Delgado. No entanto, é por causa da criatividade, do trabalho em equipe e da rotina que eles conseguem se manter vivos durante cinco anos.
As criaturas resolvem poupar a família Delgado quando Jason finalmente deixa de enfrentá-las. Ao longo do filme, ele reage a cada perigo tentando controlar, consertar ou destruir. Quando Ruth percebe que a criatura está se comunicando e não simplesmente atacando, Jason decide confiar na filha e abaixar a guarda.
Para Wagner, esse ato vem para completar o arco do personagem. “O que ele queria não era bem o que ele precisava”, diz o ator. Jason estava tão determinado a proteger a família que acabou ignorando algo mais especial que só Ruth era capaz de perceber.
Essa decisão também comprova que a família entendeu a mensagem das criaturas. De acordo com Louis, o desejo das criaturas era que os seres humanos aprendessem a coexistir e deixassem de tentar dominar não só uns aos outros, mas também o mundo natural. Ao escolher a confiança e a coexistência em vez da violência, os integrantes da família Delgado mostram às criaturas que são capazes de mudar e, por isso, ganham permissão para viver.

No final, Ann precisa mergulhar no sistema de esgoto debaixo da casa antes que o local seja totalmente inundado. A maioria das sequências subaquáticas foi filmada em situações reais de submersão, usando tanques construídos especialmente para permitir que a casa fosse inundada por dentro. Louis queria que o clímax parecesse o mais real possível, então o elenco atuou em salas submersas, e não com telas azuis.
Ian Creed, coordenador de mergulho e atividades marinhas, fez o elenco inteiro passar por cinco sessões de treinamento subaquático — começando com o básico do mergulho com cilindro, passando pela remoção de máscaras e reguladores, apneia e, por fim, a atuação sem equipamentos visíveis. O elenco precisou se acostumar a passar dias inteiros debaixo d'água e as sequências foram cuidadosamente coreografadas. Os atores cronometravam os momentos de mergulho, virada, recuperação de adereços e retorno à superfície.


Para deixar a água do tanque com uma aparência turva e esverdeada na tela, o brócolis acabou se mostrando o melhor método; no entanto, trazia uma desvantagem óbvia. No set, a mistura passou a ser apelidada de “água de brócolis”, e deixava o cenário inundado com um certo charme bem... verde.
Em alguns momentos, Ruth parece ter uma sintonia quase sobrenatural com as criaturas, fazendo arte que traz previsões ou então elaborando observações que o resto da família não consegue entender. Para Louis, isso na verdade não é algo sobrenatural: é pura intuição e abertura às possibilidades, duas coisas que as crianças costumam ter. Wagner diz que o pensamento de Ruth está em outra frequência e, por isso, ela consegue perceber coisas que o pai e a mãe não conseguem, pois estão totalmente empenhados em proteger a família. Ruth não tem nenhum conhecimento secreto, mas intui que as criaturas podem estar tentando se comunicar em vez de atacar.

Sim. Louis acredita que provavelmente existem mais sobreviventes em outros lugares, principalmente pessoas que moravam em terrenos mais elevados, em arranha-céus ou em prédios nos quais os moradores podiam formar grupos e trabalhar em equipe. “Pelo bem do nosso mundo, espero que muita gente tenha conseguido sobreviver”, diz ele. O filme deixa em aberto a real dimensão de sobrevivência da humanidade, mas os integrantes da família Delgado não são necessariamente as últimas pessoas na Terra.
Logo antes dos créditos, Ruth pergunta pelo rádio: “Algum sobrevivente na escuta?” Então, uma voz cheia de estática responde: “Alô?”. Louis não revela quem é o dono dessa voz, mas adianta que ela pertence a uma pessoa “muito, muito, muito icônica” e insiste que o público nunca vai saber ao certo quem é.
A Última Casa já está disponível, só na Netflix.









































