





Assim como tantas histórias sobre a expansão do Oeste americano, a temporada 1 de Uma Casa na Pradaria, que é baseada nos romances semiautobiográficos de Laura Ingalls Wilder e já está disponível na Netflix, começa com a busca por algo novo. Mas a releitura de Rebecca Sonnenshine sobre a mudança da família Ingalls para o Kansas no fim do século 19 deixa uma coisa clara: nem sempre é fácil transformar esses sonhos em realidade. “Desde o piloto, falávamos sobre esse mito dos EUA que era vendido: ‘Você pode ir lá e fazer tudo por conta própria. O que está esperando? A pradaria está chamando’”, conta a showrunner ao Tudum.
Quando a jovem Laura Ingalls (Alice Halsey), seu pai Charles, a quem ela chama de Papai (Luke Bracey), sua mãe Caroline, chamada de Mamãe (Crosby Fitzgerald), e sua irmã mais velha Mary (Skywalker Hughes) se mudam para a recém-fundada cidade de Independence, logo descobrem que não vão muito longe contando apenas consigo mesmos. “A verdade é que ninguém consegue fazer tudo sozinho. Até o nome ‘Independence’ remete a uma ideia que não corresponde totalmente à realidade. A gente precisa ter uma comunidade, precisa cuidar uns dos outros, ir atrás da família e dos amigos, e fazer dos amigos uma família, porque a pradaria não está nem aí para quem você é. Ela não tem a menor compaixão por ninguém”, diz Rebecca.
A família Ingalls segue para o Oeste guiada por esse mito e acaba encontrando um desafio atrás do outro, mas também descobre algo muito mais valioso na pradaria selvagem. Diante de desastres naturais, como febres e incêndios, além de situações causadas pela ganância e pelo preconceito, eles encontram uma verdadeira comunidade. Na pequena cidade, eles criam laços com uma família Osage não muito diferente da sua, um veterano de guerra viúvo que tenta superar o luto e outros colonos em busca de um novo começo, pois de acordo com Rebecca, ninguém consegue fazer tudo por conta própria e nem deveria sentir que precisa.
No fim da temporada 1 de Uma Casa na Pradaria, Charles, Caroline, Mary e Laura construíram uma bela vida nova com a ajuda dos vizinhos. Mas, mesmo depois de tudo o que enfrentaram, não conseguem mantê-la. Quer saber o motivo? Continue lendo para descobrir a verdade sobre as terras dos Osages, por que os Ingalls deixam Independence, para onde eles vão em seguida e muito mais, tudo explicado por Rebecca Sonnenshine.

Segundo Laura, a narradora da série, o pai explicou às meninas que no Grande Bosque de Wisconsin havia cada vez mais pessoas e que eles precisavam de um recomeço no Oeste. Durante a longa jornada até lá, Charles menciona um panfleto que anunciava milhões de acres de terras gratuitas para quem quisesse ocupá-las. Mas, depois de conhecer o Dr. George Tann (Jocko Sims) e descobrir que ainda não há repartição de terras em Independence, ele começa a suspeitar que se estabelecer na pradaria talvez não seja tão simples quanto foi prometido.
Quando eles finalmente chegam a Independence, a mãe fica chocada com o tamanho reduzido do lugar. “Não há escola, não há igreja, não há correio. Para Caroline, é imprescindível que as filhas tenham acesso à educação, então o fato de não haver uma escola é uma surpresa. Não é exatamente o que nenhum deles esperava”, explica Rebecca.

Além da falta de desenvolvimento de Independence, Charles e Caroline também se surpreendem com a presença dos Osages nas terras que acreditavam estar desocupadas e disponíveis para serem ocupadas por eles. Essa ilusão é destruída no final do episódio 1, quando John Edwards (Warren Christie), outro colono vindo do Tennessee, conta a Charles que todos estão apenas especulando que o governo acabará intervindo e expulsando os Osages da região.
Rebecca conta que a questão das terras, a quem elas pertenciam e as tensões em torno disso exigiram muita pesquisa. “Queríamos construir uma história que realmente explorasse o que aconteceu: os colonos chegaram e, basicamente, expulsaram os Osages das terras. Não é uma história bonita, nem uma em que seja sempre possível apontar o dedo para pessoas com intenções claramente maliciosas. O governo atraía as pessoas para essas regiões porque, assim, elas acabavam fazendo o trabalho por ele.”

No livro original de Uma Casa na Pradaria, o terceiro da série de Laura Ingalls Wilder, o povo Osage é apresentado e explorado apenas pelo ponto de vista distante de Laura. Já a série de Rebecca convida os espectadores a conhecer o cotidiano dos Osages, principalmente por meio de uma família paralela: Mitchell (Meegwun Fairbrother), sua esposa, White Sun (Alyssa Wapanatâhk), e a filha deles, Good Eagle (Wren Zhawenim Gotts), que tem idade próxima à de Laura.
Desde o momento em que Laura encontra Good Eagle, a menina, sempre curiosa, decide que quer ser amiga dela. “Criamos a personagem Good Eagle, que é um pouco como Laura: nada convencional, um tanto moleca e com dificuldades parecidas com as que Laura enfrenta para se encaixar na vida familiar. No livro, Laura fica realmente intrigada com a cultura dos povos originários norte-americanos, com a qual não chega a ter contato, mas que vê de longe. Pareceu natural para a história trazer uma personagem que ela pudesse conhecer, com quem fosse capaz de guardar segredos, aprender, descobrir coisas em comum e também perceber as diferenças”, conta Rebecca.
À medida que as duas famílias se conhecem melhor, as meninas criam um forte vínculo. Quando seguem caminhos diferentes no episódio final da temporada, que discutiremos mais adiante, Laura e Good Eagle prometem manter contato por meio de cartas, e Laura sugere que essas correspondências um dia podem virar um livro. Segundo Rebecca, esse momento é uma referência ao futuro de Laura como escritora, algo que continuará sendo retomado na série: “Ao longo das temporadas, queremos continuar preparando o terreno para mostrar como Laura se tornou escritora e quais experiências a levaram a escrever alguns dos livros mais marcantes já escritos”.

Por meio dos sonhos frequentes de Charles, que incluem episódios de sonambulismo, e de uma discussão com Caroline sobre o Sr. Edwards, a quem ela se refere como “outra pessoa machucada”, descobrimos que o irmão de Charles, George (Connor Paton), precisou lidar com o que hoje conhecemos como TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) depois de servir como soldado da União na Guerra Civil.
No episódio 4, quando Charles contrai o que o Dr. Tann chama de “febre intermitente”, causada pela malária, ele revive lembranças dolorosas de George e de uma discussão acalorada com o pai (Martin Donovan) sobre a necessidade de buscar ajuda para o irmão. Charles havia planejado levar George com a família para o Kansas, mas percebeu que ele precisava de tratamento. Depois de ouvir o irmão descrevê-lo como “quebrado”, George foge e Charles descobre mais tarde que ele morreu por suicídio. Desde então, carrega a culpa pela morte do irmão, agravada pelo fato de ele próprio nunca ter servido na guerra. De certa forma, a jornada para o Oeste também é uma tentativa de se distanciar das dores do passado.
Enquanto a mudança permite que Charles deixe a tragédia familiar para trás, ela desperta sentimentos complexos em Caroline. “Ela acredita profundamente no marido e o ama, mas a família dela, especialmente as irmãs, não apoia tanto a decisão. Como ama as irmãs, Caroline leva a opinião delas muito em conta e traz consigo para o Oeste muitas ideias preconcebidas sobre as pessoas”, explica Rebecca.
Essas dúvidas continuam acompanhando Caroline por meio das cartas que recebe de casa, deixando-a insegura sobre a permanência da família em Independence, especialmente depois que descobre estar grávida no episódio 1 e após saber a verdade sobre as terras dos Osages. Mas, durante os próprios sonhos febris, nos quais confronta a irmã Eliza (Catherine Bérubé), Caroline faz as pazes com a decisão da mudança e abraça a vida que ela e a família estão construindo na pradaria.
Quando Laura contrai a febre intermitente, ela sonha com a avó, interpretada por Megan Follows, conhecida por gerações de espectadores por seu papel como Anne Shirley na adaptação de Os Amores de Anne. Esse reencontro, assim como as cartas comoventes que Charles troca mais tarde com o pai, sugere que, embora os Ingalls tenham deixado Wisconsin para trás, não deixaram suas famílias para sempre.

Os preconceitos que Rebecca Sonnenshine e Joy Gorman Wettels dizem que Caroline traz consigo de Wisconsin para o Oeste, em parte devido à sua criação, ficam mais evidentes nas primeiras interações dela com John Edwards, a quem Charles pede ajuda para construir a casa da família. Quando descobre que John está bebendo uísque às escondidas certa noite, Caroline teme que esse hábito possa colocar a família em perigo e manda ele não voltar até parar de beber. Charles fica sabendo do confronto e explica que os problemas de John são mais profundos.
Rebecca diz que muitas pessoas, especialmente muitos homens solteiros, foram para o Oeste em busca de uma vida diferente: “Eles estavam saindo da sombra da Guerra Civil. Eu realmente queria retratar alguém que havia perdido muito e estava lutando para encontrar um sentido para a própria vida”. A extensão do passado traumático de John só é revelada no episódio 5. Ao conversar com o Dr. Tann, ele explica que, seis anos antes, voltou da guerra e descobriu que toda a sua família havia morrido de cólera. A tragédia indescritível quase destruiu John, mas fazer parte de uma comunidade em Independence permite que ele comece a se recuperar. “Quando conhece a família Ingalls, John está em um momento muito sombrio. Ele sente uma ligação muito forte com as meninas e com Charles e, mais tarde, com Caroline, o que dá a ele um motivo para continuar”, conta a showrunner.
As conexões que Caroline estabelece com John, assim como com a família Mitchell e outros colonos, como Emily Henderson (Barrett Doss), também desempenham um papel fundamental na transformação da personagem. “Vivendo no Oeste, por conta própria e longe da maior parte da família, ela começa a enxergar as pessoas como elas realmente são. Ela vê a humanidade e a bondade que existe nelas. Caroline vira uma pessoa diferente e, como diz no final da temporada, ela gosta de quem se tornou. A vida ali a transformou”, observa Rebecca.

No episódio 7, a questão central sobre o que acontecerá com as terras dos Osages agora que tantos colonos se estabeleceram na região é respondida. No início do episódio, os chefes Osages se reúnem para possivelmente assinar um tratado que resultaria na mudança do povo Osage para o território indígena, em Oklahoma. No encontro, o agente indígena Isaac Gibson (Matthew Bennett) apresenta a proposta do governo: “As terras serão compradas por 1,25 dólar por acre. Esses fundos serão usados para garantir lotes individuais para todos os Osages”. Depois de ponderar cuidadosamente, um dos chefes conhecido como governador Joe (Talee Redcorn, que também atuou como consultor da língua Osage da série), faz um discurso emocionado sobre o futuro de seu povo antes de se recusar a assinar o tratado.
Com a ajuda de Mitchell, os Osages acabam negociando duas alterações no acordo: eles devem ter permissão para caçar búfalos além das fronteiras de seu novo território e as novas terras não serão distribuídas individualmente, mas sim concedidas aos Osages coletivamente. “Queríamos explorar a capacidade dos Osages de negociar. Eles eram ótimos negociadores e usaram todas as suas habilidades e os recursos que tinham para chegar a um acordo. Seria algo que eles teriam escolhido em outras circunstâncias? Provavelmente não. Mas conseguiram chegar a um acordo com o qual sentiam que poderiam conviver naquela época”, diz Rebecca.

Mitchell se sente responsável por seu povo e está em busca de um recomeço, por isso, decide acompanhar os Osages até Oklahoma, junto com White Sun e Good Eagle. Mas eles não são os únicos a deixar Independence no fim da temporada.
No episódio final, Charles e Caroline descobrem que a família que comprou suas terras em Wisconsin não cumpriu o acordo. Eles contavam com esse dinheiro para cobrir as dívidas que não param de crescer, portanto a notícia tem um impacto imediato sobre a família, levando Charles a procurar trabalho na ferrovia. Como descobrimos no final do episódio 7, as companhias ferroviárias, em parceria com o governo, foram responsáveis por distribuir os panfletos falsos que atraíram tantas pessoas para a pradaria, com o objetivo de forçar uma negociação de terras com os Osages que abriria caminho para a expansão das ferrovias. Mas, quando Charles pergunta sobre o projeto, Eli James (Michael Hough), que trabalha para a ferrovia, diz que, por enquanto, há vagas apenas em Nebraska ou no Colorado.
Para piorar ainda mais a situação, Charles também descobre que com a conclusão da negociação com os Osages, o Ato das Propriedades que trouxe a família Ingalls para o Kansas já não se aplica. O governo comprou as terras dos Osages por 1,25 dólar o acre e agora os colonos têm apenas duas semanas para conseguir pagar 1,50 dólar por acre ou serão expulsos de suas terras. É claro que a família Ingalls não tem condições de pagar. James se oferece para conseguir um empréstimo para Charles caso ele aceite um daqueles empregos distantes na ferrovia, mas ele não quer deixar Caroline e as meninas.
A situação fica ainda pior quando um incêndio na pradaria destrói as plantações. Sem a perspectiva de uma colheita, a família fica sem nada, mas, em vez de voltar para o Grande Bosque, Caroline propõe que eles sigam em frente. Então, eles arrumam a carroça e partem mais uma vez.
Para Rebbeca, os Ingalls não estavam no controle da situação e, no fundo, não partiram por vontade própria. Mas isso não significa que tenham perdido a esperança. “Essa família se mudou muitas vezes. Eles estavam sempre em busca de algo e nunca se davam por vencidos. Os livros de Laura Ingalls Wilder são sobre isso: se as coisas não dão certo em um lugar, eles continuam juntos, como uma família, e há algo no futuro esperando por eles.”

Sim, e os fãs de longa data de Uma Casa na Pradaria sabem exatamente o que isso significa.
“Como descobrimos no final da temporada 1, eles estão a caminho de Walnut Grove, onde vão conhecer a família Oleson”, conta Rebecca ao Tudum, fazendo referência à futura aparição de Nellie Oleson, a famosa inimiga de Laura apresentada no quarto livro da série, À Beira do Riacho. Com a temporada 2 já em produção, Willa Dunn foi escalada para interpretar Nellie, que vive na cidade em Minnesota para onde John Edwards sugere que a família siga.
Isso mesmo, desta vez os Ingalls seguem acompanhados por John e, quando a temporada chega ao fim, ele aparece cavalgando junto à icônica carroça da família. “Essa imagem final é emblemática e tem tudo a ver com a série. É sobre seguir em frente e manter a esperança viva”, conclui Rebecca.
Uma segunda visita à pradaria pode revelar ainda mais descobertas. Assista novamente aos oito episódios da temporada 1 de Uma Casa na Pradaria, já disponíveis na Netflix.





















































































