Adaptação da graphic novel Em Ondas: a história real de AJ Dungo - Netflix Tudum

Um livro fechado com uma capa abstrata que mostra formas coloridas e duas figuras pequenas sobre uma superfície roxa, com efeitos cintilantes em branco.
Do livro à tela

Phuong Mai Nguyen conta como foi transformar a graphic novel Em Ondas em filme

A diretora fala sobre adaptar a graphic novel de AJ Dungo sobre o resiliente poder do amor.

Texto original de Nadine Zylberberg
Ilustração de Ibrahim Rayintakath
26 de out. de 2026

Há cinco anos, quando Phuong Mai Nguyen começou a trabalhar em Em Ondas, seu primeiro longa-metragem, ela pensou no projeto como seu próprio Monte Everest — ou, para usar uma metáfora mais apropriada, como se estivesse na beira de um oceano de incertezas. Para ela, parecia uma missão impossível.

Por sorte, dar vida à adaptação da amada graphic novel de AJ Dungo não era uma tarefa que enfrentaria sozinha, um tema que faz sentido com o material. “Esta é uma história que une as pessoas”, diz a diretora.

Em Ondas acompanha AJ (com a voz de Will Sharpe em inglês), um jovem skatista e artista de Los Angeles que tem medo de água, mas que gosta muito de Kristen (Stephanie Hsu), uma menina que vive nela. Em um de seus primeiros momentos juntos, Kristen ensina AJ a surfar — ou pelo menos a encontrar paz no vai e vem das ondas. Logo, os adolescentes se apaixonam e uma conexão mais profunda começa a surgir. 

AJ Dungo começou o livro como história sobre surfe, mas o projeto se desenvolveu em uma autobiografia, com o autor relembrando seu primeiro amor. Quando ele conheceu Phuong Mai, soube que a cineasta era ideal para essa história: “Eu me lembro de assistir a Chez Moi, um curta-metragem dela, e ficar realmente encantado com sua habilidade de contar uma história sem usar palavras, mas ainda assim mostrar tanto pelas expressões, texturas, cores, tom, atmosfera e metáforas visuais. Ela tem o dom de capturar as emoções humanas de maneiras sutis”.

AJ (voz de Will Sharpe) e Kristen (voz de Stephanie Hsu) dão as mãos enquanto estão sentados em pranchas de surfe, com um píer e ondas quebrando no horizonte atrás deles, em uma cena de Em Ondas.

AJ (voz de Will Sharpe na versão em inglês) e Kristen (voz de Stephanie Hsu na versão em inglês)

O surfe se torna o plano de fundo para todas as fases do romance entre AJ e Kristen: trepidação, êxtase, alegria, medo e até mesmo luto. Phuong Mai diz que precisava compartilhar essa história: “Eu queria passar a urgência de viver e acreditar no futuro através dos personagens”.

AJ sente que Phuong Mai abordou esse projeto com uma sinceridade, humor e compaixão que permitiram que ela realmente entendesse as nuances da história: “Para um filme sobre algo devastador, ele tem muita vida e humor nas atuações, na comédia física e no ritmo. Eu ri e chorei”, comenta.

Para mergulhar no mundo dos personagens, Phuong Mai visitou a escola onde o casal estudava, a casa de Kristen e as praias onde eles costumavam surfar. “Esses cenários que ela pôde conhecer em primeira mão ficaram muito vívidos no filme”, conta AJ.

Ele e Phuong Mai até surfaram juntos e, quando o autor visitou a França, Phuong Mai fez um jantar para ele. Todas essas experiências trouxeram sinceridade e ternura aos personagens da animação e aos cenários que eles habitam. 

Na criação do roteiro, os roteiristas Fanny Burdino e Samuel Doux desenvolveram uma versão fictícia de AJ, mas basearam a caracterização e as experiências na realidade, incorporando o desejo de AJ de se tornar um artista e sua necessidade de processar emoções por meio de imagens.

A jornada artística de AJ, e seu livro sobre o relacionamento, se tornaram uma história dentro da história, misturando fatos e ficção. O autor conta que Fanny e Samuel fizeram perguntas sobre detalhes que iam além do livro, como as vidas domésticas dele e de Kristen, os sonhos deles, sobre o que eles brigavam e quem eram seus amigos: “O livro não tem muitos detalhes, então eles precisaram de mais histórias para trazer os personagens à vida”, completa.

AJ (voz de Will Sharpe) e Kristen (voz de Stephanie Hsu) fazem cachorros-quentes à noite com dois amigos em uma cena de Em Ondas.

Para buscar sua inspiração, Phuong Mai, uma vietnamita que mora na França, ficou impressionada com a luz característica da Califórnia, um grande contraste com os lugares onde ela cresceu.

Ela usou as pinturas de David Hockney como referência para sua própria interpretação do céu e do mar de Los Angeles. Levando seu próprio estilo gráfico para a história, a diretora se concentrou na luz, nas cores, e na textura do oceano. A água foi usada para representar as emoções que mudam ao longo do filme.

“No começo da história, para trazer essa ideia de primeiro amor e juventude, as cores são bem vibrantes e cintilantes. Porém, quando nos aproximamos do fim da vida de Kristen, a luz se torna progressivamente mais branca e os cenários perdem a vivacidade. Aos poucos, passamos a trabalhar com tons mais fechados e sombrios. As ondas parecem mais instáveis, como se representassem o caos que AJ está vivendo”, diz Phuong Mai.

Transportar o tema do luto da graphic novel para o filme foi uma questão de equilíbrio, principalmente porque mudar a mídia significa deixar alguns elementos de lado e criar outros. Enquanto isso, Phuong Mai e a equipe queriam manter a verdadeira essência da história intacta, com o poder transformador da água em seu cerne.

Vista de cima de um grupo de surfistas entrando no oceano, com a superfície do mar tomada de ondas que refletem tons de rosa, laranja e amarelo, com um tom sépia na cena.

Para Phuong Mai, quando o assunto é surfe, é importante destacar de onde ele vem. Em Ondas começa com uma cena em tons de sépia no Havaí, muitos anos antes, quando homens e mulheres destemidos entraram na água e descobriram uma nova forma de estar em comunhão com o oceano que os cercava.

A diretora viajou ao Havaí para conhecer historiadores, antropólogos e pesquisadores e entender melhor os rituais e a cultura do esporte. Na água, até hoje, os surfistas estão sempre conversando com a natureza, com o ciclo da vida e com tudo o que não podem controlar. “Para mim, surfar é confrontar algo muito maior do que você. É uma forma de ser humilde diante da natureza e aceitar os eventos da maneira que acontecem”, comenta Phuong Mai.

Baseada em livro

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