



Do brilho magenta dos demônios ao poder iridescente do Honmoon, cada tom ajuda a construir a narrativa.
Embora talvez não seja recomendável, é possível assistir a Guerreiras do K-Pop inteiro sem som e ainda assim acompanhar uma história visual deslumbrante contada apenas pelas cores vibrantes da animação. As equipes criativas por trás do filme indicado ao Oscar® e vencedor do Globo de Ouro ajustaram cuidadosamente o tom exato de cada figurino de alta-costura, mecha de cabelo e arranha-céu de Seul para revelar jornadas emocionais, capturar a atmosfera impecável dos K-dramas e homenagear tradições coreanas cheias de significado.
Uma das orientações que Maggie Kang e Chris Appelhans, responsáveis pela direção e pelo roteiro, passaram para a equipe de animação foi que a estética do universo de Guerreiras do K-Pop não devia ser óbvia nem rigidamente codificada por cores. Essa abordagem sofisticada reflete as múltiplas facetas de Rumi, Mira e Zoey, também conhecidas como as HUNTR/X, adoradas estrelas do K-pop caçadoras de demônios. A diretora de arte Mingjue Helen Chen contou ao Tudum que “foi uma das filosofias que Maggie apresentou logo no início. Ela não queria estereotipar as garotas com uma só personalidade”. Uma frase recorrente durante o desenvolvimento visual do grupo era “Elas não são os Power Rangers”.

Essa filosofia de desafiar expectativas e preencher cada cena com uma energia feminina mágica faz Guerreiras do K-Pop parecer diferente de tudo o que já chegou às telas. Cada cor apresenta nuances próprias, refletindo a sofisticação das roupas e das artes coreanas ao longo da história. Chen explica: “O vermelho não é um vermelho puro; ele tem um toque de rosa. O verde não é um verde puro; ele tem um toque de azul. No fim, todas acabam se tornando cores bastante terciárias”.
Das chamas demoníacas em rosa-magenta aos figurinos em tons pastel chiclete dos Saja Boys, passando pela tonalidade exata do cabelo de Mira (sim, finalmente solucionamos esse mistério!), a equipe de artistas responsáveis por Guerreiras do K-Pop destrincha os tons vibrantes que dão vida ao universo que os fãs adoram revisitar.

À primeira vista, poderíamos pensar que o dourado é a cor mais importante de Guerreiras do K-Pop. Afinal, durante grande parte da história, o principal objetivo de Rumi é criar o Honmoon Dourado, uma barreira mágica, alimentada pela música e pelo amor dos fãs, capaz de separar para sempre o mundo dos demônios do mundo humano. E quanto ao grande hino emocional do filme, Golden (conhecido como “Brilho” na versão brasileira)? Indicada ao Oscar®, essa canção é cheia de elementos dourados no clipe. Embora o dourado represente o sonho de Rumi no início da jornada, a cor mais importante de Guerreiras do K-Pop não aparece em nenhuma caixa comum de lápis de cor: trata-se da iridescência, um espectro inteiro de tons perolados e sutis que inclui rosas, azuis suaves e verdes delicados.

Sem perceber, Rumi, Mira e Zoey caminham em direção a algo muito maior do que imaginam. No final, as HUNTR/X não criam apenas um Honmoon Dourado. O grupo vai além e alcança um Honmoon Arco-Íris, símbolo da união das vozes de toda a comunidade de fãs.

Apesar de a grande explosão com o brilho multicolorido do Honmoon Arco-Íris só acontecer na reta final da história, os cineastas e artistas semearam pistas desde o começo, usando a iridescência como princípio visual orientador. As cores do Honmoon aparecem nas roupas das garotas e também nas marcas demoníacas de Rumi. Elas podem ser vistas até mesmo nas armas: a Saingeom de Rumi, ou “Espada dos Quatro Tigres”; a Gok-do de Mira, ou “Lâmina da Lua Crescente”; e as Shin-kal de Zoey, ou “Lâminas Espirituais”. Essas armas não são lâminas convencionais de contornos rígidos, mas representações de um tipo diferente de poder. “Sempre imaginei as armas delas impregnadas de energia musical: coloridas, iridescentes e fluidas como luz líquida. Visualizei barras ou notas musicais saindo e deixando rastros durante os movimentos, como uma fusão natural entre performance e poder espiritual”, explica Ami Thompson, responsável pelo design de personagens. Seguindo a direção de Chris, a designer Euni Cho, que trabalhou mais de perto no desenvolvimento das armas, buscou inspiração na cimática, ciência dedicada ao estudo e à visualização das frequências sonoras.
Em Guerreiras do K-Pop, a iridescência representa a música, a força e o verdadeiro destino das HUNTR/X.

Ao criar a linguagem visual do mundo dos demônios, os cineastas e os responsáveis pela animação sabiam desde o início que queriam fazer algo diferente de tudo. “Não queríamos seguir aquele estereótipo do inferno todo vermelho, então o diretor de arte Scott Watanabe fez uma pintura usando um vermelho magenta bem rosado, o que foi uma novidade”, conta Chen.

Sempre que o brilho magenta domina a tela, é sinal de que Gwi-Ma, o senhor dos demônios representado por chamas magenta no submundo, está se sentindo poderoso. Quando a boy band demoníaca Saja Boys enfeitiça uma multidão durante a apresentação de Meu Pequeno Guaraná, um tom magenta cobre a vibrante e colorida Seul com uma beleza assustadora, simbolizando o avanço da influência dos demônios.

É comum que personagens animados usem as mesmas roupas durante um filme ou uma série inteira, mas esse não é o caso das estilosas HUNTR/X. O guarda-roupa do trio vai de peças de alta-costura que desafiam tendências a pijamas confortáveis e moletons fofos. “Acho que Scott preparou, sem exagero, entre 200 e 300 desenhos de figurinos para o filme todo”, revela o diretor de animação Josh Beveridge. Só Rumi tem 23 trocas de roupa.

E nenhuma das garotas fica presa a uma única cor característica. Exceto quando usam figurinos combinando para apresentações, o trio está sempre variando. Segundo Josh, a ideia é que “elas não pareçam coordenadas, mas pertençam ao mesmo grupo”. Nos looks mais icônicos, como aqueles usados no jatinho particular logo no começo e outros que tantas pessoas recriam para fantasias durante o Halloween, nenhuma delas fica limitada a um único tom. Por exemplo, o amarelo aparece nas três personagens, mas em proporções e estilos diferentes.

Se fosse preciso resumir cada integrante a uma única cor, uma pista estaria em seus norigae, os delicados adornos usados em trajes tradicionais coreanos. Ainda assim, diferentes contas e ornamentos coloridos refletem a personalidade e os gostos específicos de cada uma das garotas.

Obviamente, o cabelo de Rumi é roxo. Mas, quando se trata de animar o cabelo de uma estrela do K-pop, nada é tão simples ou tão óbvio. “Fizemos muitas reuniões para decidir isso. A cor do cabelo nunca é apenas uma cor, ele precisa ter várias camadas. E existem inúmeras decisões, como a quantidade de fios soltos, se o coque estará mais arrumado ou mais bagunçado...”, explica Josh.
Chen acrescenta: “Até certo ponto, cada artista pintava Rumi com uma tonalidade diferente. Durante muito tempo, eu fazia o cabelo dela branco com um toque de lavanda. Na animação, é preciso observar como as coisas evoluem”.

E chegamos a um dos grandes mistérios: como definir a cor do longo cabelo flamejante de Mira? Como tantas outras cores presentes em Guerreiras do K-Pop, trata-se de um tom intermediário e cheio de nuances, daqueles que você reconhece instantaneamente, mas nem mesmo a equipe de animação encontra uma definição perfeita. “Salmão não parece ser a palavra certa. É um pouco mais intenso e mais próximo do coral. É uma tonalidade muito específica. Se você me pedisse para indicá-la agora em um círculo cromático, eu provavelmente não conseguiria. Ela tem um pouco de rosa, um pouco de laranja e traços de várias outras cores únicas”, detalha Chen.
Josh tenta resumir: “Nunca ouvi um nome oficial para ela. Nós chamamos essa cor de ‘vermelho Mi’”.
No fim, a equipe adota uma aproximação de uma tonalidade conhecida em inglês como foxtail, ou rabo de raposa. Ainda assim, “vermelho Mi” parece combinar mais. Afinal, nossa rebelde favorita desafia qualquer tentativa de categorização.

Os Saja Boys foram concebidos desde o princípio para passar por uma transformação chocante: de galãs doces e aparentemente perfeitos para suas formas demoníacas aterrorizantes. “Estávamos sempre observando onde começar e onde terminar com eles. Queríamos tornar a revelação ainda mais impactante, porque passar de um visual gótico para outro visual gótico não cria uma jornada tão marcante quanto partir de algo completamente diferente”, conta Chen.
Para reforçar esse contraste, a equipe adotou para o estilo deles o máximo possível da estética chiclete, com abundância de tons de rosa suave, azul-bebê e verde-água. Ao mesmo tempo, era preciso que o visual continuasse convincente o bastante para justificar legiões de fãs apaixonadas. Josh conta: “Eu precisava lembrar toda hora a equipe de animação de que eles também são demônios. É fácil colocá-los em uma caixinha e deixá-los fofos demais. Trabalhamos muito para eles ficarem estilosos. Isso é moda. É claro que as roupas são quase absurdas, mas continuam incríveis”.

Quando eles revelam sua verdadeira natureza demoníaca, o contraste é assustador: pele magenta e marcas arroxeadas transformam por completo a aparência do grupo. “A equipe de artistas testou inúmeras combinações de cores, mas verde sobre azul não causava o mesmo impacto”, explica Chen. O artista Nacho Molina recebe o crédito por encontrar o visual ideal para esses padrões demoníacos, que desempenham um papel essencial na jornada emocional de Rumi.

O motivo de Guerreiras do K-Pop parecer tão diferente das outras animações está no fato de que tudo remonta à jornada emocional das três protagonistas. Elas recebem a promessa do dourado, mas encontram algo muito mais colorido e poderoso. Chen conta: “Elas são mais do que uma única cor. Chris Appelhans, por exemplo, tinha convicção de que não queria usar uma paleta típica de animação. Foi aí que os K-dramas se tornaram uma referência importante, porque a iluminação deles é muito diferente da forma como normalmente trabalhamos na animação”.

Curiosamente, a suavidade inspirada nos K-dramas tornou impossível esconder imperfeições na animação. Nas palavras de Josh, “tudo fica exposto sob essa iluminação delicada. Nada é gráfico ou chapado, há uma luz suave e contornos suaves. Acabei descartando boa parte dos truques que desenvolvemos nos últimos filmes”.

E, para os realizadores do filme, suavidade nunca foi sinal de fraqueza, assim como força nunca foi algo simples ou binário. Essa sensibilidade aparece de forma marcante na batalha entre as HUNTR/X e os demônios sobre um metrô em alta velocidade na Ponte Cheongdam. “Lembro que conversamos sobre a possibilidade de criar uma cena de luta insana usando cores oníricas em vez de tons agressivos. Encontramos momentos para celebrar cores tradicionalmente associadas ao feminino, justapondo uma sequência de ação com tons de roxo e rosa”, recorda Chen.
Assista a Guerreiras do K-Pop, disponível só na Netflix.




























































































