





Afinal, quem é o verdadeiro monstro em Monstro: A História de Ed Gein? Opções não faltam e incluem tanto o público quanto a sociedade como um todo. “O interessante da série é que a premissa de cada temporada é sempre a mesma: monstros nascem ou são criados? Eu acho que, no caso de Ed, é um pouco dos dois”, diz o cocriador Ryan Murphy.
À medida que a trama de Ed Gein, o assassino em série e ladrão de túmulos de Wisconsin (interpretado por Charlie Hunnam) se desenrola, as histórias inspiradas pelos crimes dele começam a se misturar à narrativa principal. A presença de personagens como Alfred Hitchcock (Tom Hollander) é essencial para a história que Ryan e o cocriador Ian Brennan estão contando. Na visão deles, foi a mídia consumida por Ed que alimentou seus impulsos assassinos.
“A série toda aponta a câmera para nós mesmos. O que a gente escolhe assistir, as imagens e histórias que consumimos importam muito. Elas deixam marcas e causam impacto”, diz Ian ao Tudum.
Em entrevista ao Tudum, Charlie questiona: “Quem foi o monstro, afinal? Esse rapaz que sofreu abusos a vida inteira e acabou isolado, com uma doença mental que nunca foi diagnosticada ou a legião de pessoas que transformou a vida dele em entretenimento sensacionalista e deixou marcas sombrias na alma americana e mundial?”.
Talvez a resposta seja mesmo um pouco de tudo isso. Monstro: A História de Ed Gein percorre todos os aspectos da vida do protagonista: o abuso sofrido nas mãos da mãe, Augusta Gein (Laurie Metcalf), a obsessão pelos criminosos de guerra nazistas, os crimes brutais contra as mulheres de Plainfield, Wisconsin, e, por fim, a prisão e o diagnóstico.
“Ele carregava uma variedade enorme de tons e assuntos. Não deixamos nada de fora. Fizemos questão de mostrar o retrato mais completo possível”, afirma Ian.
Confira a seguir tudo sobre a história de Monstro: A História de Ed Gein.

Na série, a primeira vítima de Ed surge quando ele bate na cabeça do irmão e acaba matando Henry (Hudson Oz) por acidente. Para não ser responsabilizado, ele provoca um incêndio, mas a morte de Henry abala profundamente a mãe e agrava a já conturbada relação entre os dois.
O rancor de Augusta abre uma ferida que acompanha Ed por toda a vida. “Ele era um cara estranho que vivia no próprio mundo, na própria realidade, em isolamento total, com apenas um ponto de contato. Então tudo na vida dele era meio que inventado, uma obra da própria imaginação”, diz Charlie.
Até a voz de Gein parecia moldada por essa relação. “Era uma afetação, era o que Ed achava que a mãe gostaria que ele fosse. Não era uma voz genuína e sim um personagem que ele representava porque a mãe queria uma filha e teve um filho. Nos momentos mais hostis e cruéis, ela dizia para Gein: ‘Eu devia ter castrado você ao nascer’”, completa Charlie.
A voz que Charlie escolheu para sua interpretação veio de uma fonte pouco conhecida: uma fita do próprio Gein no momento da prisão, à qual só o ator teve acesso. “A fita nunca veio a público porque Ed não teve seus direitos legais lidos antes do interrogatório. Por isso, sempre se pensou que ela seria inadmissível como prova”, diz Charlie. Foi o ator quem ajudou a encontrar essa gravação, que inspirou sua interpretação de Ed, um assassino que praticamente desaparece na paisagem gelada de sua cidade natal em Wisconsin.
Após a morte do irmão, Ed logo se vê completamente sozinho quando a mãe adoece e morre. Com saudade, ele tenta desenterrá-la, mas acaba se contentando com outro corpo. As invasões de túmulos de Gein foram ainda mais numerosas que os assassinatos; ele usava pele ressecada para fazer móveis, luminárias e outros objetos. Uma gaveta cheia de vulvas é uma das cenas mais perturbadoras da série. E a história só fica mais sombria a partir daí.

Adeline Watkins (Suzanna Son), vizinha e namorada ocasional de Ed, é o único conforto que lhe resta, apesar do comportamento cada vez mais estranho dele. Em certo momento, ela até se junta a Gein em suas invasões de túmulos. A presença de Adeline é tão constante que surge a pergunta: será que ela existe mesmo?
Adeline se baseia em uma moradora real de Plainfield, Wisconsin, mas não existem muitas informações sobre ela. “O que sabemos é que, no começo, ela contou que os dois namoravam e planejavam se casar. Depois, voltou atrás e falou: ‘Não, inventei tudo aquilo’”, diz Ian.
Os criadores sabem que, em uma série tão marcada pela imaginação de Ed, o público pode se perguntar se Adeline é fruto de sua mente. A dupla chegou a pensar em confirmar isso no último episódio, mas decidiu que a escolha tiraria a força emocional da história. “Discutimos bastante essa questão. Para mim, ela é real”, diz Ian.
Curiosamente, nem a equipe de produção chegou a um consenso sobre Adeline. “Para mim, ela é, em grande parte, uma fantasia criada por Ed. Seja na realidade ou apenas na própria mente, ele vê nela uma espécie de alma gêmea, alguém capaz de entender esses instintos e impulsos primitivos que ele tem”, resume Charlie.
É Adeline quem apresenta a Ed algumas das fantasias sórdidas que dominariam sua vida, entre elas a fascinação pela criminosa de guerra nazista Ilse Koch, a “Cadela de Buchenwald”. Interpretada por Vicky Krieps em sequências de fantasia, Koch é quem inspira Ed a esfolar suas vítimas e transformá-las em móveis. Adeline também se transforma a partir desse conhecimento e vai a Nova York para tentar trabalhar com o famoso fotógrafo de cenas de crime Weegee (Elliott Gould), mas acaba rejeitada.
Segundo Ian, “Ela representa bem o tema central da série: cuidado com o que escolhe assistir. As imagens podem corroer, ficar grudadas em você e mudar quem você é. E nós, assim como Ed, acabamos vendo a personagem se afundar em algo cada vez mais sombrio e assustador”.

Sim, o clássico do terror de Alfred Hitchcock, Psicose, foi inspirado nos crimes de Gein, e Monstro: A História de Ed Gein explora essa conexão.
Não é coincidência que o episódio em que Ed mata a bartender Mary Hogan (Rondi Reed) por ela lhe lembrar a mãe que a série apresente a história paralela de Hitchcock. O diretor levaria os crimes de Ed Gein às telas em Psicose, baseado no romance homônimo de Robert Bloch, o que faz do longa mais uma obra inspirada no Carniceiro de Plainfield.
A influência duradoura de Ed Gein na cultura pop foi um dos fatores que atraíram Ryan para essa história. “É provavelmente uma das pessoas mais influentes do século 20, mas quase ninguém sabe quem ele é. Gein está por trás do bicho-papão, de Psicose e de Norman Bates, além de ter deixado sua marca em O Silêncio dos Inocentes, O Massacre da Serra Elétrica e Psicopata Americano”, afirma o cocriador.
A série também mostra Hitchcock escalando Anthony Perkins (Joey Pollari), um jovem que lidava com o próprio segredo de ser gay na Hollywood nos anos 1950, e a ousada campanha de marketing criada pelo mestre do suspense para lançar Psicose nos cinemas: ninguém podia entrar depois que o filme já tivesse começado, regra reforçada por um totem (recriado na série) em que o famoso diretor aponta para o relógio como um aviso para não se atrasar.
Retratar o surgimento da obsessão americana por serial killers é o objetivo maior de Ryan e Ian nesta temporada de Monstro, e tudo na série converge para isso. Segundo Ian, a influência de Ed Gein no cinema é o que faz essa história ecoar até hoje: “Foi aí que tudo fez sentido pra mim”.
Para Charlie, Psicose é um divisor de águas no gênero terror. Antes do filme, segundo ele, os monstros do cinema eram criaturas como lobisomens, Drácula e Frankenstein. Nunca era o vizinho ao lado, ou o funcionário do hotel que tem acesso à chave do seu quarto durante a noite. “Foi uma reinvenção completa do gênero”, resume o ator.
Em paralelo aos crimes de Ed, a série também acompanha sua futura influência cultural, a começar por Tobe Hooper (Will Brill), assombrado por visões violentas enquanto desenvolve O Massacre da Serra Elétrica. Segundo a trama, seu personagem Leatherface teria nascido de relatos familiares sobre os crimes de Ed, sobretudo do assassinato de dois caçadores (Patrick Scott Lewis e Ira Amyx), um crime que nunca foi oficialmente atribuído a ele.
Depois, vemos os bastidores de O Silêncio dos Inocentes, vencedor do Oscar® dirigido por Jonathan Demme, quando o ator Ted Levine, no papel de Buffalo Bill (Golden Garnick), dança ao som de “Goodbye Horses”, de Q Lazzarus. O escritor Thomas Harris teria se inspirado no figurino grotesco de Ed, feito com a pele de suas vítimas, para conceber Buffalo Bill.
O episódio final ainda faz referência a outra produção original Netflix, com textos na tela que indicam o local onde se passa a trama e homenageiam Mindhunter, de Joe Penhall e David Fincher, a aclamada série sobre agentes do FBI que entrevistam assassinos. Segundo Ian, essa era uma forma de reforçar como Ed influenciou tanto O Silêncio dos Inocentes quanto Mindhunter: “Foi uma maneira divertida de fechar tudo, usando outro vocabulário cinematográfico e falando sobre como ele fez parte dos primórdios da criação de perfis do FBI”.
Mas, antes de tudo isso, Ed ainda precisa ser capturado.

Ed tem a oportunidade para mudar de rumo várias vezes, como quando Adeline aceita seu pedido de casamento e sugere que arrume um trabalho de babá para se acostumar com a ideia de ter filhos. Só que ele assusta as crianças ao mostrar sua casa de horrores e acaba substituído por Evelyn (Addison Rae), uma jovem gentil que ele mata pouco depois, em um ato de vingança. Na vida real, a morte de Evelyn nunca foi solucionada, embora Ed tenha sido interrogado sobre seu desaparecimento.
A cena da morte de Evelyn é difícil de assistir, mas os bastidores foram bem diferentes, revela Addison. Em entrevista à Netflix, ela descreve Charlie como um profissional atencioso, que cuidava dela o tempo todo para garantir que estivesse bem: “Ele só quer que todo mundo se sinta acolhido e confortável, principalmente em cenas tão vulneráveis e intensas. Ele sempre se certificava de que aqueles momentos tivessem um encerramento leve, sem simplesmente cortar a cena e se isolar. Ele foi muito gentil”.
“Teve até um momento engraçado: a barriga dele roncou no meio da cena, e eu lembro que a gente riu muito. Nós pensamos que isso precisava acontecer porque é bom fazer uma pausa de vez em quando. É bom dar uma risadinha assim, se sentir acolhida, segura e sem medo”, relembra Addison.
Com o tempo, Ed inicia um romance com Bernice (Lesley Manville), uma dona de loja, disposta a explorar tanto as excentricidades dele quanto os próprios desejos sexuais. Mas as alucinações de Ed com Augusta voltam, e Bernice se torna sua próxima vítima. É esse crime que leva a polícia até sua porta: o filho de Bernice (Charlie Hall) é o delegado da cidade e fica horrorizado ao encontrar o corpo decapitado da mãe no celeiro de Ed.
Como a série revela, o estado mental de Ed pode ter sido o que o livrou da pena de morte. “Acho que Ed gostava muito de Bernice Worden. Na vida real, ele inventava qualquer desculpa para procurá-la na loja. Tenho quase certeza de que Ed nem sabia o que estava pensando quando fazia aquelas coisas. Era só um estado maníaco”, diz Charlie.
O julgamento termina com Ed sendo enviado a uma instituição psiquiátrica, não à prisão, por decisão do juiz. Ali, ele finalmente encontra um pouco de paz, ainda que acompanhada de fantasias que insistem em voltar: por meio de um radioamador, ele imagina conversas com Ilse Koch, mulher que, à distância, ajudou a colocá-lo no caminho da monstruosidade. Para Ian, Ed só faz sentido no contexto do Holocausto: “Foram essas imagens que ficaram gravadas na cabeça, que ele não conseguia deixar de ver”.
O radioamador de Ed também permite que ele “entre em contato” com outra obsessão antiga: Christine Jorgensen (Alanna Darby), a primeira pessoa amplamente conhecida a realizar uma cirurgia de redesignação sexual nos Estados Unidos. Convencido de que é uma pessoa trans, Ed veste a pele das mulheres que mata, como Buffalo Bill fazia em O Silêncio dos Inocentes. Mas, como Christine lhe diz, Ed não é trans, e sim ginefílico, ou seja, um homem tão atraído pelo corpo feminino que deseja estar dentro dele.
Para os criadores, essa distinção era essencial diante da desinformação que ainda cerca o tema da violência envolvendo pessoas trans. Segundo Ian, “era fundamental deixar claro que se tratava de duas coisas bem diferentes e foi bacana poder colocar isso na boca de Christine Jorgensen. Ouvir isso, mesmo que só na cabeça dele, foi um momento bem marcante”.
Foi durante a pesquisa sobre Ed que Ryan e Ian descobriram que ele realmente usou um radioamador durante sua internação, o que deu origem ao “artifício” (palavra do próprio Ryan) usado no episódio 7. “Essa era a forma perfeita de dramatizar as relações com todas aquelas mulheres e transformar essas conversas no estopim que o levou a entender quem ele era, o que tinha feito, e qual foi a influência delas sobre ele”, afirma Ryan.

O diagnóstico de esquizofrenia chega enquanto Ed está isolado no hospital psiquiátrico, sendo o que finalmente explica por que ele cometeu os crimes e não lembra de nada. “Sempre soubemos que o clímax da história seria essa exploração da doença mental e de como ela afetou Ed. Chorei muito ao ler essa cena pela primeira vez, imaginando se ele teria feito o que fez caso tivesse recebido o tratamento certo mais cedo”, relembra Charlie.
Segundo Ryan, toda a temporada foi construída em função do momento em que Ed recebe o diagnóstico: “Os oito episódios dependiam dessa cena, e o mais surpreendente é que aquela tomada, a atuação de Charlie que a gente vê na tela, foi o primeiro take. Ele acertou de primeira. Cheguei a ligar para Charlie duas vezes às lágrimas, de tão emocionado que fiquei com o trabalho dele”.
Saber que Ed tinha esquizofrenia mudou a forma como Charlie encarou as gravações. “Ele realmente vivia naquele mundo. As fantasias e os limites daquele universo eram tão reais para ele quanto qualquer outra coisa. Era simplesmente a realidade dele. Aqueles episódios maníacos eram a experiência que Ed estava vivendo”, explica Charlie.
A história de Ed atraiu Ryan e Ian, entre outros motivos, por abrir espaço para uma conversa específica sobre doença mental. “Eu tinha muito interesse na obrigação da sociedade em relação às pessoas que enfrentam problemas de saúde mental, que vivem crises por isso. Ed era a pessoa perfeita para abordar isso, porque, quando foi capturado, recebeu um diagnóstico rápido e foi muito bem cuidado pela sociedade. Foi levado a diferentes hospitais, tratado com atenção e recebeu os medicamentos corretos”, explica Ryan.
Ryan reflete sobre a deterioração do sistema de saúde mental nos Estados Unidos, que já teve hospitais, sanatórios e uma rede estruturada de apoio. Ele observa que o financiamento desses serviços vem caindo há anos e destaca o que mais valoriza no episódio 7: mostrar como um sistema de saúde mental bem financiado pode transformar gerações e o que acontece quando esse investimento desaparece.

As fantasias de Ed ganham outro tom no episódio final: em vez de violentas e angustiantes, mostram o personagem ajudando o FBI a prender Ted Bundy (John T. O’Brien), delírio que a equipe de enfermagem do hospital encara com naturalidade. Já doente de câncer, Ed reencontra Adeline pela última vez, e ela promete dar continuidade ao trabalho dele, matando pessoas e abraçando a própria escuridão. Mas, surpreendentemente, Ed diz para ela não fazer isso, em uma dinâmica bem diferente da que os dois tinham antes.
Antes de chegar à versão final, Ryan e Ian cogitaram outra visita para Ed no episódio de encerramento. Segundo Ryan, o encerramento chegou a se chamar “Momma’s Boy” (filhinho da mamãe, em tradução livre) e mostraria Laurie Metcalf visitando Ed no hospital psiquiátrico, ideia que foi logo abandonada, pois perceberam Ed não queria isso naquele momento. Eles preferiram criar uma homenagem a O Show Deve Continuar , além de explorar o legado sombrio de Ed: “Existiram muitos seres sombrios no mundo, como Richard Speck e Ted Bundy, que foram influenciados e ficaram obcecados por Ed pelos motivos errados”.
No fim da vida, Ed tem uma visão dos vários assassinos que inspirou. Eles o conduzem por um longo corredor e o cobrem de elogios. Para Ian, essa é a parte mais desafiadora de toda a série, não pelo conteúdo em si, mas em termos de tom e pelo fato de Ed não se horrorizar com aquilo: “Ele adora o fato de ter deixado uma marca”.
Em outra visão, já no leito de morte, Ed passa por um grupo de enfermeiras dançando e sobe uma escada, onde é recebido pela mãe. Os momentos finais do protagonista resumem a série como um todo. “Augusta está ali, dizendo mais ou menos: ‘Você realmente se tornou alguém'. É uma nota bem interessante, meio dissonante, com que encerramos a história. Acho que faz sentido porque estivemos com esse personagem por bastante tempo, mas ele também é um profanador de túmulos, um homem profundamente estranho que fez coisas muito sombrias e mudou nossa cultura”, diz Ian.
A influência cultural de Ed aparece de novo na cena final, quando um grupo de jovens tenta roubar sua lápide, situação inspirada em uma história real, já que, segundo Ian, a lápide de Ed “nem está mais lá, vive sendo roubada”. Só que os jovens de Monstro acabam afugentados pelos ecos do que Ed inspirou: Norman Bates, Buffalo Bill e Leatherface. A distância, o protagonista observa tudo com um sorriso discreto, enquanto a série termina com a mesma imagem que fecha O Massacre da Serra Elétrica: Leatherface dançando com sua motosserra.
“É como se ele estivesse assombrando tudo que acontece ali. De certa forma, a intenção era mostrar o quanto ele foi realmente influente”, resume Ian.
Antes dos créditos finais, temos mais um vislumbre de Ed, muitos anos antes, sentado ao lado de Augusta. “Só uma mãe poderia te amar”, diz ela, uma profecia que assombraria o jovem perturbado até o fim da vida.
Monstro: A História de Ed Gein já está disponível na Netflix.









































































