





A temporada 1 de Os Abandonados começa com uma disputa por terras que se forma sob o solo rico em prata de Jasper Hollow, na fronteira da cidade de Cordilheira dos Anjos, e termina com esse conflito chegando ao limite e se transformando em um incêndio que muda para sempre o destino dos Abandonados, uma família formada por pessoas excluídas pela sociedade, e da poderosa dinastia Van Ness.
Segundo o produtor executivo Chris Keyser, os grandes temas da série — o que define uma família, até onde alguém é capaz de ir para protegê-la e como agir de forma ética em um mundo brutal — estão no centro da história e ganham vida por meio da rivalidade entre as matriarcas Fiona Nolan (Lena Headey) e Constance Van Ness (Gillian Anderson). “As duas querem a mesma coisa. Querem proteger suas famílias, tanto financeiramente quanto em termos de segurança. Querem mantê-las longe de perigos e garantir seu sustento. É claro que elas ocupam posições muito diferentes no mundo e têm recursos completamente distintos, mas justamente por isso a maneira como cada uma encara a vida é profundamente diferente e fascinante. Elas nunca se encontram no mesmo caminho”, conta Chris ao Tudum.
Depois de sete episódios marcados por traições, alianças secretas e uma violência cada vez mais intensa, o final reúne Fiona e Constance em um confronto brutal corpo a corpo, em meio aos destroços em chamas da propriedade dos Van Ness. Na cena final da temporada, apenas a silhueta de uma das duas mulheres emerge do incêndio.
A seguir, com a ajuda de Chris Keyser, Lena Headey e Gillian Anderson, analisamos os principais acontecimentos do final da temporada 1, o que eles significam para Cordilheira dos Anjos, e qual matriarca e sua definição de família saem vitoriosas.
Sim, mas por quanto tempo, ninguém sabe. Nos episódios 6 e 7, todas as estruturas ocultas do domínio de Constance desmoronam: sua milícia secreta é descoberta e destruída, suas alianças se rompem, seus filhos se dispersam e a própria casa, símbolo físico de seu poder, é consumida pelas chamas.
Chris concorda que os Van Ness sofreram um golpe devastador: “Não há muita dúvida em relação a isso. A própria Constance deixa isso claro, não é? Tudo é muito frágil”. Mas viver na fronteira sempre significou estar à beira do colapso. A prata das minas está se esgotando, o que reduziu a capacidade de Constance de sustentar a cidade e a própria família. Ao mesmo tempo, segundo Chris: “As coisas que ela faz para proteger seu sistema e as atitudes que tomou colocam tudo em risco de uma forma completamente diferente”.
Então, esse é o fim do império dos Van Ness ou apenas o encerramento de uma fase? O episódio final sugere as duas coisas: a estrutura de poder foi destruída, mas Constance talvez ainda não tenha dito sua última palavra.

Como líder dos excluídos, Fiona é a heroína evidente no confronto contra Constance ou, pelo menos, seria em outra série. “O que acho interessante na série é apresentar Constance de uma forma mais generosa do que se poderia imaginar”, diz Chris.
No episódio final, Fiona chega profundamente transformada pelos próprios atos. Ela mentiu, matou, encobriu assassinatos, enfraqueceu sua aliança com os Cayuse e liderou um ataque armado à propriedade dos Van Ness. Ao mesmo tempo, construiu uma família formada por crianças abandonadas e se colocou entre elas e a destruição várias vezes.
Chris não vê Os Abandonados como uma história dividida em categorias morais simples. “Não gosto de histórias com vilões e heróis totalmente óbvios”, afirma. Citando sua fala favorita do filme A Regra do Jogo, ele diz: “O mais terrível da vida é isto: todo mundo tem seus motivos”.
Ainda assim, ele acrescenta: “Fiona definitivamente é uma heroína, em certo sentido”. Chris diz compreender os dois pontos de vista, tanto o de Constance quanto o de Fiona, e descreve a série como “uma conversa muito interessante sobre responsabilidade pública e direitos individuais”. Segundo ele, Constance tem “um argumento bastante sólido de que o bem da comunidade exige alguma concessão em relação às terras ocupadas pelos Abandonados”, enquanto Fiona “defende pessoas que ninguém mais defenderia. Ela construiu uma família do nada e cuidou de quem precisava de cuidado. Está defendendo o direito ao que realmente lhe pertence. E, nesse sentido, de uma forma muito americana, ela é uma heroína”.
Mas o senso de justiça de Fiona tem limites, afirma Lena Headey. “Fiona sempre consegue aliviar a culpa dizendo que tudo foi obra de Deus ou uma orientação divina, até o momento em que isso deixa de funcionar”, conta a atriz ao Tudum.
O episódio final faz Fiona cruzar vários limites morais, mas, como diz Chris Keyser, “Seria um mundo muito triste e pessimista se não houvesse volta depois disso. Principalmente para alguém que, em um momento de extremo desespero, fez coisas das quais talvez se arrependa. O que não significa que ela vá se arrepender, porque não tenho certeza disso”.

No centro do confronto final entre Fiona e Constance está a discussão sobre qual dor merece mais peso. Constance insiste que o sofrimento pela perda de Willem é único porque ele é seu filho biológico. Fiona rebate dizendo que seus filhos adotivos não são menos “reais” do que filhos de sangue.
Chris afirma que esse é “o cerne da discussão entre essas duas mulheres, além da disputa de terras”. Para Constance, alguns tipos de família têm mais valor do que outros. A resposta de Fiona, segundo Chris, é simples: “As pessoas que eu escolho amar, eu amo com a mesma intensidade e a mesma profundidade que você. Talvez até mais”.
Mas, para Fiona, segundo Lena, o verdadeiro conflito está no que Constance representa. “Elas compartilham a experiência da maternidade, mas a de Fiona não aconteceu da forma convencional. Acho que ela sente uma inveja profunda da maternidade biológica de Constance e também da posição social e financeira que ela tem, embora jamais admitisse isso. É um sentimento que ela carrega dentro de si”, afirma a atriz.
A série não aponta uma vencedora nesse debate. “Não acho que alguém precise vencer essa discussão, nem que um tipo de família seja melhor do que outro. Tentar estabelecer uma hierarquia entre esses modelos de família é um exercício vazio e sem sentido. Amor é amor”, diz Chris. Ao mesmo tempo, ele lembra que, historicamente, na década de 1850, “não há dúvida de que a sociedade consideraria a família de Constance uma família legítima e diminuiria a importância dos laços familiares construídos por Fiona”. Nesse sentido, a série funciona como alerta e também como lembrete de que a definição de família se ampliou ao longo do tempo. “Ela incentiva uma forma mais ampla e generosa de enxergar a vida”, conclui Chris.

Até o episódio final, Dahlia enfrenta abuso, violência, sequestro e um tratamento brutal pelas mãos de Constance. Quando reaparece, ela demonstra uma calma inquietante e praticamente não reage quando Constance corta seu rosto.
Essa transformação faz dela uma personagem muito mais forte. “É um processo bastante complexo. Chegamos ao momento em que ela aceita que o mundo pode ser um lugar cruel. Provavelmente é ainda mais cruel para as mulheres, ainda mais em um lugar onde a lei quase não existe. Então ela decide que vai se defender”, diz Chris. Mas endurecer demais também pode ter consequências. “Se isso vai levá-la além do ponto que gostaríamos, se ela vai se tornar mais fria, implacável, mais disposta a não poupar ninguém, só o tempo dirá”.
Para Chris, a trajetória de Dahlia é marcada por contrastes: “Por um lado, é uma história de amadurecimento, sobre descobrir quem você é, encontrar a própria força e aprender a se proteger. Ao mesmo tempo, existe uma frieza que só nasce quando você entende de verdade quais cartas a vida pode colocar nas suas mãos”. O episódio final deixa Dahlia exatamente nesse ponto de virada.

O ataque à propriedade dos Van Ness também marca o fim de uma história de amor, pelo menos por enquanto. Depois de encontros secretos e planos sussurrados sobre uma vida diferente, Trisha descobre que Elias matou Willem e ajudou a esconder a verdade. O confronto entre os dois na cidade parece acabar com qualquer esperança de um futuro juntos, especialmente quando Elias diz: “Eu te amo. Mas eu faria de novo”.
Chris sempre enxergou o relacionamento dos dois como uma narrativa clássica. “É um tipo de história antiga que continua funcionando, como Romeu e Julieta. Você pode criar todas as regras que quiser sobre quem está de qual lado desse conflito, mas o coração tem suas próprias razões. Trisha e Elias sentem algo que todas as outras regras do mundo não conseguem negar. E isso pode ser muito perigoso, no fim das contas”. Segundo ele, cruzar essas fronteiras invisíveis coloca os dois e suas famílias em risco: “O mundo não costuma tratar bem quem atravessa linhas que parecem frágeis. Eu diria que os dois sofrem muito, ao mesmo tempo em que recebem tudo que esse amor lhes proporciona”.

No episódio final, Constance vê sua casa se transformar em uma fortaleza destruída. Funcionários e aliados morrem tentando protegê-la, sua filha foge horrorizada, Dahlia é mantida prisioneira, o corpo de Willem permanece preservado e ela enfrenta Fiona em um sótão tomado pelo fogo.
Para Chris, a trajetória de Constance representa uma versão extrema do mesmo processo vivido por Dahlia. “Existe o risco de cruzar um limite em que seu comportamento deixa de ser aceitável. Constance flerta com esse limite durante toda a série e, no fim da temporada, o ultrapassa claramente. Você pode chamar isso de loucura. É um comportamento extremo que talvez mereça esse nome, mas, no fundo, tudo parte da mesma ideia: ‘Vou fazer de tudo para proteger o que é meu e quem eu amo’. Em determinado momento, não existe mais freio. É simplesmente: ‘Vou fazer de tudo’”, afirma o showrunner.
A obsessão de Constance não nasce apenas da ambição ou do desejo de riqueza. Ela é alimentada pela perda, pela sobrevivência e pela convicção de que a prosperidade da cidade depende de sua família continuar controlando Jasper Hollow. “Essa mulher atravessou o país inteiro, deixando para trás uma vida relativamente protegida e privilegiada com os filhos. Perdeu o marido e, mesmo assim, conseguiu manter o controle, administrar um negócio, cuidar de uma cidade e proteger a própria família. Isso é extraordinário. Ela merece reconhecimento”, diz Chris. O episódio final permite que o público enxergue tudo o que há de admirável e de monstruoso em Constance.
Gillian Anderson desenvolve essa ideia ao explicar o que move sua personagem em meio ao caos. “Constance acredita de verdade que está lutando por causa justa. E essa causa é tão sincera e tão importante para ela quanto a missão de Fiona é para Fiona. Constance realmente acredita que está fazendo o que é certo para o progresso da humanidade. Sempre que algo entra no caminho desse objetivo, ela fica determinada a fazer o que for preciso para remover esse obstáculo”, conta a atriz ao Tudum.
Chris Keyser espera que o público não enxergue Constance apenas como uma vilã sem nuances. “O argumento dela é que você pode insistir em manter suas terras e se recusar a fazer um acordo, mas, sem a mina, não existe cidade. E, sem a cidade, não faz sentido você estar ali. Ainda existe uma responsabilidade com a comunidade. Ninguém vive completamente isolado”.

A última imagem da temporada, uma figura solitária, coberta de fuligem, emergindo das chamas enquanto a mansão desaba ao fundo, foi criada de forma intencionalmente ambígua, convidando o público a discutir quem sobrevive e o que isso significa para o futuro. O episódio coloca Fiona e Constance em uma luta brutal dentro da casa de Constance, já tomada pela fumaça e prestes a desabar. Apenas uma figura deixa o local.
Questionado se sabe quem sobrevive, Chris responde: “Não vou responder essa pergunta. Tenho uma ideia de como isso deveria acontecer, mas não quero, de forma alguma, revelar minhas cartas”.
Ainda assim, ele provoca: “Está claro que uma pessoa sobrevive. Talvez duas sobrevivam. Mas quem é ela, e se é uma ou são duas pessoas, continua em aberto. E essa é a graça”.
Lena Headey também não entrega o jogo. “Olha, é um mistério. Ia ser engraçado se o Demogorgon saísse andando de dentro do incêndio”, diz a atriz.
O incêndio que encerra Os Abandonados não funciona apenas como um gancho sobre quem vive e quem morre, embora também seja isso. É o momento em que todas as motivações dos personagens entram em choque e a disputa sobre que tipo de família e que tipo de mundo vai prevalecer continua no ar.
Os Abandonados já está disponível, só na Netflix.
























































