





A voz de Kelli Finglass é a primeira a ecoar na tela durante a temporada 1 de As Cheerleaders do Dallas Cowboys, a adorada série esportiva de Greg Whiteley, diretor e produtor executivo de Cheer. E não é um tom de voz moderado: como de costume, na cena em questão a diretora veterana do grupo está orientando a equipe nos bastidores antes do show do intervalo.
“Estão preparadas?”, pergunta Kelli. “Sim, senhora”, responde o grupo. “Escutem com atenção!”, avisa ela, elevando a voz o suficiente para deixar claro que está falando sério. O tom sugere correções de última hora ou mesmo uma bronca, mas de repente a voz dela assume um timbre mais suave.
“Lembrem-se de que vocês são famosas no mundo todo. As melhores. E batalharam muito para estar aqui. Então, se apresentem como ensaiaram. Vamos lá.”

Essa voz e estilo de liderança também marcam presença na temporada 2 de As Cheerleaders do Dallas Cowboys, já disponível na Netflix. Os novos episódios, aliás, mostram ainda mais de Kelli Finglass em ação: ela solta verdades difíceis de engolir, levanta o astral do grupo e reflete sobre como liderar uma equipe que se apresenta em um palco tão famoso.
Tudo isso ilustra muito bem o papel de Kelli como treinadora e mentora, funções que ela já exerce há 35 anos no DCC. Ela não tem papas na língua, mas vale a pena prestar atenção no que ela tem a dizer. Ao lado dela, há também a voz mais discreta de Judy Trammell, coreógrafa-chefe da equipe ao longo das últimas quatro décadas. Judy tem um papel tão essencial quanto o de Kelli: ela foi cheerleader do Dallas Cowboys no início dos anos 1980 e carrega uma paixão enorme pela dança. Ainda assim, Judy nunca buscou a fama.
“A Kelli sabe que eu nunca gostei dos holofotes. Quando nos conhecemos, eu era muito tímida e só queria saber de ficar nos bastidores. Eu era bem quietinha. Só que as pessoas quietas também podem ser ótimas líderes. Quando estou com o grupo, eu me transformo, pois preciso liderar. E isso é natural para mim”, revela Judy ao Tudum. A temporada 2 mostra esse lado da coreógrafa, além de ilustrar como a trajetória dela influencia seu estilo de liderança.

Juntas, as duas cuidam para que os chutes altos saiam perfeitos e que o look de cada dançarina esteja impecável até nos mínimos detalhes. No entanto, vale lembrar que As Cheerleaders do Dallas Cowboys não é a primeira vez que Kelli e Judy mostram ao público os bastidores do DCC. Os fãs certamente se lembram de Dallas Cowboys Cheerleaders: Making the Team, da Country Music Television. O formato era mais próximo de um reality show do que de uma série documental, com foco nas duras seletivas do grupo. Já As Cheerleaders do Dallas Cowboys, de Greg Whiteley, mergulha no cerne desse processo (que, sim, continua sendo uma disputa acirrada) e vai além, investigando a vida das jovens que lutam por uma vaga na equipe.
Antes da estreia da temporada 2, Kelli e Judy conversaram com o Tudum sobre as mudanças que o DCC viveu desde a época em que as duas integravam a equipe, as duras lições que aprenderam como treinadoras e o modo como a série As Cheerleaders do Dallas Cowboys revela uma faceta inédita da vida das cheerleaders.

Para começar, qual é a pergunta mais frequente sobre o DCC?
Kelli Finglass: “As meninas realmente se dão bem? São mesmo amigas no vestiário?”. A resposta quase sempre é sim, elas ficam muito amigas. Muitas nem se conhecem quando começam a seletiva, mas a amizade acaba surgindo depois de passarem pelo treinamento juntas. Todo ano, temos quatro ou cinco casamentos, e todas viram madrinhas. Depois, chegam os chás de bebê. E eu sou prova disso: continuo muito amiga das meninas que entraram na equipe comigo. Aliás, várias delas estiveram no casamento da minha filha. É um vínculo que vai muito além da nossa experiência como cheerleaders. A amizade só cresce conforme vamos construindo família, seguindo a carreira e encarando os desafios da vida real.
Judy Trammell: Todo mundo imagina que rolam brigas e desentendimentos, mas elas são como irmãs. A amizade é muito forte.

Kelli Finglass, Judy Trammell e Tina Kalina posam para uma foto no Super Bowl XXVII.
Vocês foram cheerleaders do Dallas Cowboys nos anos 1980. O que mudou na equipe desde então?
Judy: O nível das meninas tem subido a cada ano, e por isso preciso monitorar as tendências de dança para acompanhar o ritmo. Elas são incríveis. Na nossa época, se a gente tivesse uma ou duas dançarinas que se destacavam, já era algo realmente incrível. Agora temos 36 jovens incrivelmente talentosas. Isso deixa meu trabalho mais divertido e desafiador, pois podemos ousar muito mais nas apresentações. Acabamos de incluir um número de hip-hop, e quase não parece que são as mesmas meninas que arrasam na coreografia para “Thunderstruck”, do AC/DC. Hoje, a variedade de estilos de dança que podemos explorar é muito maior.
Kelli: Tem coisas que não mudaram, como as nossas turnês da USO e as visitas a hospitais e lares de idosos. A parte ligada à nossa missão continua a mesma. O que mudou é que agora também atuamos na TV. E, há algumas semanas, entramos também no mundo dos shows ao vivo. Sempre tentamos acompanhar as tendências e deixar a coreografia e as músicas bem atuais. Ao mesmo tempo, há coisas que são praticamente iguais às que tínhamos nos anos 1980, como o processo de seleção que hoje passa na TV, a confraternização de fim de ano, as amizades e os relacionamentos.

Judy, você é a principal coreógrafa da equipe há quatro décadas, o que é um feito e tanto. Como acha que evoluiu em seu papel de liderança ao longo desse período?
Judy: Hoje sou bem mais compreensiva. Já vivenciei com a minha família tudo que as cheerleaders estão vivendo agora. Tenho três filhos, minha filha também foi cheerleader e agora sou avó. Ou seja, eu consigo me colocar no lugar delas em diversas situações e quero oferecer mais carinho, do mesmo jeito que eu gostaria que fizessem com os meus filhos.

Judy e Kelli discutem quem fica e quem sai da equipe.
O DCC tem um público gigantesco, o que significa que as críticas acabam surgindo. Uma dessas críticas é que vocês reforçariam a imagem de uma mulher idealizada ou “perfeita”. A opinião de vocês sobre essa mulher perfeita, ou a cheerleader perfeita do Dallas Cowboys, mudou com o passar dos anos?
Kelli: Sim. Minha opinião mudou bastante, bem no espírito do que a Judy colocou. Eu tinha 27 anos e tinha acabado de sair da equipe quando virei diretora. Era implacável, pois sempre fui exigente comigo mesma. Hoje, nós duas somos mães e acompanhamos a vida dessas meninas, as histórias delas, os desafios que elas superaram e os momentos mais delicados que viveram, tudo por meio da Netflix. Passei toda a minha carreira tentando transmitir uma imagem de perfeição, mas agora sinto que são justamente as imperfeições delas que as deixam tão maravilhosas. Elas têm histórias incríveis que podem servir de inspiração ou fazer com que as pessoas se identifiquem com Armani, Jada, Kelly, Charly ou Reece. São essas histórias tão singulares que as deixam tão marcantes, acessíveis e possivelmente inspiradoras. Hoje, ser uma cheerleader perfeita é justamente não ser perfeita. E não ter medo de admitir isso.

As seletivas em campo fazem parte do processo de avaliação do DCC.
Depois da temporada 1, o salário das cheerleaders virou um dos temas mais debatidos pelo público e ganhou destaque na temporada 2. Toda essa discussão mudou a opinião de vocês sobre a remuneração delas? Qual a opinião de vocês sobre o aumento que elas conseguiram no fim da temporada?
Kelli: Acho que o nível cada vez mais alto de qualidade e a grande visibilidade que as meninas conquistaram foram essenciais para repensarmos a questão. Nós trabalhamos para melhorar o programa todos os anos, e isso vai desde o figurino e as músicas até, obviamente, a questão da remuneração. Quando fica evidente que essas dançarinas estão entre as melhores do mundo e que o tempo que dedicam à equipe hoje é muito maior do que na nossa época, a mudança passa a fazer sentido. E ainda bem que foi assim. No final das contas, todo mundo queria a mesma coisa. Agora, elas estão satisfeitas com as melhorias que fizemos, o que também nos deixa felizes como treinadoras.

Vocês duas exigem muito das cheerleaders, mas elas também são muito exigentes com elas mesmas. Como vocês orientam as meninas para lidar com a pressão sem baixar o rendimento?
Judy: Elas já chegam aqui acostumadas a se destacarem em tudo o que fazem. Muitas delas comandaram as equipes de faculdade ou os grupos de dança no colégio. A maioria tem faculdade e uma ótima formação. Temos muito orgulho disso. Elas chegam aqui com essa mesma vontade de fazer o melhor possível o tempo todo.
Kelli: Eu e a Judy fazemos de tudo para preparar as meninas para qualquer situação que possa surgir em uma partida ou apresentação ao vivo. A preparação traz confiança para elas se apresentarem da melhor maneira possível. E esperamos que elas mantenham a calma mesmo sob pressão. A apresentação que elas fizeram em Jake Paul vs. Mike Tyson, da Netflix, foi uma das mais dinâmicas que já fizemos ao vivo. Foi muito diferente de qualquer jogo ou palco. Exigiu muito foco e preparo, mas também foi divertida. Acho que as meninas gostam de encarar esses desafios.

E quanto às lições que vocês aprenderam ao longo dos anos como treinadoras? Já aconteceu de vocês perceberem que foram duras demais com alguém?
Kelli: Às vezes eu acabo falando coisas sem pensar direito, no calor do momento, e depois percebo que não foi a melhor hora. Já aconteceu de eu procurar algumas cheerleaders em particular para pedir desculpas. Somos treinadoras e também estamos sob pressão, então é natural que essas falhas ocorram, mas precisamos ter a noção de que nossas palavras podem magoar uma pessoa justamente quando ela está cansada, sensível ou vulnerável. Fazemos o nosso melhor e estamos sempre aprendendo.
Assista à temporada 2 de As Cheerleaders do Dallas Cowboys na Netflix.

















































