





A carreira de Mike Tyson no boxe e sua vida fora dos ringues são documentadas há décadas, mas TYSON revela aspectos da sua história que ainda não tinham sido mostrados.
Ao longo de quatro episódios de uma hora, a série documental dirigida por Floyd Russ (Untold: Briga na NBA, Procurados - EUA) acompanha Tyson enquanto ele revisita suas vitórias, derrotas, controvérsias e os desafios pessoais que moldaram seu legado como lutador e a pessoa que é hoje.

No auge de sua carreira, quando se tornou o campeão dos pesos-pesados mais jovem da história, Mike Tyson ganhou o apelido de “o cara mais durão do planeta”. Mas TYSON vai além dos títulos e das conquistas para mostrar o homem por trás do boxeador.
Pessoas próximas e colegas falam sobre o filho, o amigo, o marido e o pai que conhecem. “É um novo olhar sobre ele, porque acabou de completar 60 anos. Mike segue sóbrio, no estilo californiano, sem usar drogas pesadas nem consumir bebidas alcoólicas há mais de 10 anos. A ideia era chegar à visão que ele tem da própria vida, e isso ficou claro logo no início”, conta o diretor ao Tudum.com.

Foram meses de trabalho até chegar lá. A equipe visitou os lugares e espaços que ajudaram a moldar Tyson. No caminho, Floyd também acabou vivendo uma experiência psicodélica que não estava nos seus planos.
A seguir, o diretor relembra o primeiro encontro com Mike Tyson, conta quais assuntos o ex-boxeador evitava e revela o que aconteceu quando recebeu o convite para experimentar o “sapo”.

O que foi essencial para contar a história de Mike Tyson de um jeito inédito?
Entrei no projeto com um olhar novo, porque só conhecia os episódios mais famosos da vida de Mike: a mordida na orelha, o apelido de cara mais durão do planeta. Como documentarista, eu tinha diante de mim uma oportunidade única: o que fazer com um acesso sem precedentes a uma figura como ele? Afinal, estamos falando de um dos maiores atletas e de uma das figuras culturais mais controversas do nosso tempo. Como contar uma história assim?
Depois de conhecer Mike e sentir como seria nossa relação, comecei a pesquisar. Li tudo o que consegui encontrar, das autobiografias dele ao material disponível na internet. Assisti a tudo o que já tinha sido produzido sobre sua vida e, depois, tentei deixar aquilo de lado — o que é quase impossível. Era importante que ele se sentisse à vontade para contar sua história sob um novo ponto de vista.

Como foi conhecer Tyson pela primeira vez?
Nossa primeira conversa foi por Zoom, cerca de duas semanas antes da luta contra Jake Paul. Eu estava nervoso. Entrei na chamada com a câmera ligada, mas Mike apareceu com 15 minutos de atraso e não ligou a dele. Na tela, só havia um quadrado preto. Ele estava entre dois treinos e parecia mal-humorado, talvez por causa da tensão antes da luta. Quando está treinando, ele fica assim. Nossa conversa durou apenas dois minutos. Foi direta, sem rodeios.
Desde o começo, eu sabia que não adiantava tentar enrolar Mike Tyson nem ser simpático demais. Eu precisava conquistar o respeito dele e falar com franqueza. Então, fui direto ao ponto: “Olha, para ser sincero, não sei muita coisa sobre você. Estou aqui para descobrir quem você foi e quem é hoje”.
A gente se entendeu logo de cara. A resposta dele foi mais ou menos assim: “Beleza, não vejo a hora de começar”.

Como você fez para que o filme também prendesse a atenção de quem não acompanha boxe?
Eu não queria fazer um documentário esportivo. Mike é um ícone cultural. Ele fez de tudo: virou ícone da moda e também foi parar nas manchetes por causa de várias controvérsias. Queria mostrar o peso da sua história e o que ela revela sobre nossa cultura, os EUA e talvez até o mundo todo, especialmente sobre a forma como consumimos notícias sobre celebridades e acompanhamos a mídia.
Quantas vezes você entrevistou Mike Tyson durante a produção?
Acho que foram oito entrevistas, distribuídas ao longo de oito a 12 meses. Algumas fizemos sentados, frente a frente. Em outras, acompanhamos Mike por lugares importantes de sua vida, como Brownsville e a academia de Catskill, onde ele aprendeu a lutar boxe. Também fomos com ele a Las Vegas, um lugar decisivo em sua trajetória, e o visitamos na Flórida, onde mora atualmente.

O diretor Floyd Russ e Mike Tyson, de costas
Mike Tyson é uma figura pública há décadas, e sua vida já foi documentada de muitas formas. Como vocês escolheram o que entraria no documentário diante de tanto material de arquivo?
Tudo se resume ao que queremos despertar no público. Não me importa se uma gravação já foi usada antes. Se ela é boa e relevante, vou usá-la para provocar alguma emoção. Nossa equipe de pesquisa de arquivo era enorme: quatro produtores passaram 16 meses reunindo material.
Uma das coisas de que mais gosto no documentário é a maneira como intercalamos as entrevistas atuais com registros antigos. Assim, o público consegue acompanhar todo o arco da vida de Mike. É isso que torna esse documentário especial. Não me preocupo com o que foi feito antes: nenhuma dessas produções teve acesso ao Mike Tyson de 60 anos, quando ele pode olhar para a própria vida por completo e refletir sobre ela.

Perto do fim do episódio 4, você e ele experimentam o “sapo”, uma substância psicodélica encontrada em certas espécies de anfíbios. Como surgiu essa ideia?
Estávamos no carro, eu ia no banco da frente, e Mike estava atrás, fumando. Perguntei: “Por que você lutou contra Jake Paul?”. Ele se inclinou para a frente e respondeu: “O ‘sapo’ mandou eu fazer isso”.
Fiquei sem entender: “Hã? Do que você está falando?”. Nunca tinha ouvido falar do “sapo” e imagino que muitos espectadores também não. Mike explicou: “Toda vez que preciso tomar uma decisão importante, consulto o “sapo”. Ele contou que, na época em que enfrentava problemas com o vício, sofreu uma overdose tão grave que ficou desesperado para tentar qualquer coisa que pudesse ajudá-lo. Foi quando alguém sugeriu o “sapo”. Às vezes, a experiência pode ajudar pessoas a lidar com a dependência e traumas.

Mike me disse: “Desde que fumei o ‘sapo’, nunca mais usei cocaína nem bebi”. Ele acredita que talvez nem estivesse vivo se não tivesse encontrado o “sapo”. Perguntei como era a experiência e ele respondeu: “Por que você não experimenta comigo?”.
Não sabia se ele estava falando sério. Algumas semanas depois, porém, alguém me avisou: “Mike adoraria experimentar o ‘sapo’ com você. Ele pode fazer isso nessa data”.
Conversei bastante com minha esposa para garantirmos que a experiência fosse segura. Pesquisei muito e, três semanas depois, Mike e eu estávamos deitados sobre uma manta no quintal, prestes a embarcar em uma experiência que me levaria a lugares que eu nunca tinha conhecido.
Como você conseguiu se manter presente como documentarista enquanto viveu a experiência com o “sapo”?
É engraçado, porque minha primeira reação foi: “Prefiro ficar só observando você, registrando tudo e fazendo perguntas depois”. Mas Mike logo me disse: “Se você experimentar, vai entender melhor o que estou vivendo e poderá me fazer perguntas muito mais pertinentes”.
Era como se viver aquela experiência com Mike me permitisse compreendê-lo melhor e entrar em seu círculo de confiança. Desde o primeiro dia, minha maior preocupação era uma só: como diabos vamos terminar esse documentário? Como encerrar uma produção épica que acompanha a vida inteira de Mike Tyson?

Experimentar o “sapo” foi especial para mim porque encontramos ali o desfecho do documentário. Não pesquisamos essa possibilidade nem planejamos nada. Aconteceu durante as filmagens, e é isso que um documentário precisa fazer: registrar o que acontece, sem ter tudo escrito de antemão.
Não se trata de dizer: “Estamos usando drogas, e isso é legal”. Foi uma jornada espiritual.
Havia assuntos sobre os quais Mike não queria falar?
Quando eu perguntava sobre Don King, não conseguia respostas. Nas três ou quatro primeiras entrevistas, era sempre a mesma coisa: “Não quero falar sobre Don, vamos para o próximo assunto. Próxima pergunta”. Ou, então, Mike respondia com poucas palavras.
A questão de Don King foi um capítulo à parte, algo que tivemos que abordar com cuidado para entender como lidar com o assunto. Eu não tinha ideia do trauma que Mike carregava por causa dele. Precisávamos superar essas barreiras para que Mike conseguisse falar sobre isso. E, veja só, depois que experimentamos o sapo, ele falou sobre Don.

Quais foram os maiores desafios dessas entrevistas?
Com Mike, você só consegue conversar sobre um ou dois assuntos por dia. Depois, acabou. Ele encerra a conversa, quer ir para outro lugar, e você precisa voltar no dia seguinte. É preciso acompanhar o ritmo dele e estar preparado para uma verdadeira jornada psicológica. Para mim, o maior desafio era chegar ao set ou encontrá-lo a cada dia sem saber o que esperar. Eu me perguntava: “Como será que vai estar o humor dele hoje?”.
O que você espera que o público leve consigo depois de assistir a TYSON?
Para mim, o documentário inteiro é uma montanha-russa: a história se constrói, depois se desfaz, e tudo ganha novos sentidos. Quando você acha que conhece alguém, descobre que existe um outro lado daquela pessoa. Essa é a jornada ao longo dos quatro episódios. Na sessão de exibição do episódio 1 que fizemos no cinema, houve momentos em que as pessoas riram, e eu fiquei surpreso: “Nossa, nunca imaginei que isso fosse fazer alguém rir”. Depois, no clímax, o público estava chorando. E tudo isso acontece já no episódio 1. A gente acaba refletindo sobre como o poder da fama pode ser perigoso.
TYSON já está disponível na Netflix.
































































