



Mais do que uma história, para Guillermo del Toro, Frankenstein é uma religião. Sua adaptação do clássico de Mary Shelley, que já está disponível na Netflix, é o filme para o qual ele vem se preparando a carreira inteira.
“A criação de Mary Shelley está presente na minha vida desde sempre. Para mim, é a Bíblia. Mas eu queria me apropriar dela, recriá-la em outro tom, com outra emoção”, conta o cineasta vencedor do Oscar®.
Para dar seu toque criativo ao pai de todos os monstros, del Toro precisava de uma equipe de primeira: um elenco à altura de personagens tão icônicos e uma equipe técnica capaz de dar conta da imensidão do horror gótico da história e da visão do diretor: “Eu queria que o filme colocasse à prova todas as áreas da produção cinematográfica. Temos cenários enormes, objetos de cena imensos e um figurino complexo. Queria passar a sensação de um filme antigo feito nos tempos áureos de Hollywood.”
A versão de Frankenstein de del Toro se passa na Europa de meados do século 19, no auge da Guerra da Crimeia, um período trágico em que aproveitadores enriqueceram às custas da miséria do povo. No centro da trama está Victor Frankenstein (Oscar Isaac), aqui reinventado como um cientista rebelde cujos experimentos fizeram com que ele fosse ridicularizado e escorraçado dos círculos de poder. A injeção de dinheiro de um mecenas (o vencedor do Oscar® Christoph Waltz) permite que ele siga em sua busca para criar vida. Mas, como qualquer pessoa devota do romance de Mary Shelley sabe, criar não é sinônimo de controlar, e Victor não leva em conta que sua Criatura (Jacob Elordi) tem ideias próprias naquela mente recém-formada.
A seguir, mergulhe no universo exuberante de Frankenstein de Guillermo del Toro, com os artistas que deram vida à obra. “Para mim, só os monstros guardam os segredos que tanto desejo”, diz del Toro. Chegou a hora de você também desvendar esses segredos.

Antes que del Toro pudesse dar vida à sua Criatura, ele precisava construir um lar à altura dela. A equipe de Frankenstein , incluindo a diretora de arte Tamara Deverell, encontrou esse lugar em uma caixa-d’água abandonada, que se erguia vários andares em direção ao céu. Ali, o laboratório de Frankenstein ganhou piso de mármore, uma escadaria espiral de mármore feita sob medida e uma imponente janela circular, elemento que deve parecer familiar para fãs de obras anteriores do diretor, como A Forma da Água e A Colina Escarlate.
“Vocês vão observar muitos componentes circulares. Para del Toro, eles representam o ciclo da vida, o começo, o fim, o ouroboros infinito, a cobra mordendo a própria cauda. É um tema muito claro, e faço o possível para incorporá-lo sempre que dá”, conta Tamara.
A diretora de arte precisou de cinco meses para aperfeiçoar o cenário. Ela usou uma renderização em 3D para visualizar cada detalhe e refinar o laboratório até que ele ficasse à altura da genialidade e do lado sombrio de Frankenstein. O acabamento levou pedra e azulejos, além de uma pátina verde que sugere como até o cobre mais brilhante pode se corroer com o tempo. “Testamos muitas paletas com tons de verde sobre verde”, comenta Tamara. A escolha final transmite a dose certa de decadência.

Os outros sets de Frankenstein têm a mesma atenção aos detalhes. “Queríamos fazer uma produção à moda antiga, bonita e de proporções épicas, feita por mãos humanas”, diz del Toro.

Ao adaptar a obra de Mary Shelley, del Toro fez questão de não perder um aspecto de vista: “Quando ela escreveu Frankenstein, ela não estava escrevendo uma obra de época. Era um livro moderno, então eu não queria que o público se deparasse com um filme de época em tons pastéis”. Frankenstein se passa no passado, mas del Toro não queria que a história parecesse um texto antigo, e sim uma obra jovem que simplesmente nasceu em outro tempo. Isso significava tratar o romance não como um cadáver a ser reanimado, mas como algo vivo e pulsante.

“O livro carrega muita angústia, aquela aflição que você sente na adolescência quando não entende por que todos mentem sobre o mundo. O romance tem essa energia inquieta. Ele quer questionar o capitalismo. Quer perguntar: ‘Quem sou eu? Por que estou aqui? O que Deus enviou para mim? Qual é o meu propósito? O que é o mundo?’ Eu queria capturar essa angústia”, revela del Toro.
Boa parte dos diálogos do filme é original, mas del Toro queria manter o espírito de Mary Shelley ao longo da obra. E sua própria formação ajudou nisso. “Quando o inglês é sua segunda língua, você desenvolve uma percepção muito aguçada da melodia e dos ritmos do idioma. Os diálogos do livro têm um ritmo muito próprio. Tentei fazer com que os diálogos do filme tivessem essa mesma cadência, mas sem soar arcaicos”, diz ele.
Del Toro também refletiu muito sobre a relação de Frankenstein com outro livro sobre pais e filhos: As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, uma obra igualmente importante para o cineasta, que ele adaptou para “Pinóquio por Guillermo del Toro”, animação de 2022 vencedora do Oscar®. “Acabei fazendo os dois praticamente um atrás do outro, em uma época em que perdi meu pai e minha mãe. Precisei me perguntar de verdade quem eu era, porque deixei de ser o filho de alguém. Isso fez com que os dois ficassem mais profundos”, diz del Toro.

Del Toro e seu diretor de fotografia e parceiro de longa data Dan Laustsen (O Beco do Pesadelo, A Forma da Água) pensam muito nas cores. Em Frankenstein, a dupla optou por azuis metálicos e âmbar profundos, projetados com filtros de gel posicionados em luzes enormes do lado de fora dos sets. O método, criado por Dan em sua primeira parceria com del Toro, Mutação, filme de 1997 sobre insetos gigantes, permitiu que os atores circulassem pelos ambientes muitas vezes abarrotados do filme sem interferir no desenho de luz.
Na sala de edição, del Toro era presença constante. Ao contrário de muitos cineastas, ele prefere editar o material de cada dia antes do início das filmagens do dia seguinte. Isso significa chegar cedo ao set para trabalhar com o editor Evan Schiff, outro colaborador de longa data, de filmes como O Labirinto do Fauno e Hellboy II: O Exército Dourado.

Em uma produção grandiosa como Frankenstein, muitas escolhas de edição dependiam do timing, do posicionamento dos letreiros do filme à ordem dos flashbacks. Assim como outros chefes de departamento de del Toro, Evan faz questão de dividir os méritos com o cineasta. “Como editores, temos muitos truques na manga. Gosto de dizer que mentimos, trapaceamos e roubamos para viver. E ele é tão bom quanto qualquer um em mentir, trapacear e roubar na edição”, diz Evan.

No coração de Frankenstein existe uma espécie de triângulo: Victor Frankenstein, a Criatura que ele colocou no mundo e Elizabeth Harlander (Mia Goth), a mulher presa entre os dois. Del Toro precisava de um trio de atores de peso para dar vida a essa dinâmica, e encontrou exatamente isso em Oscar Isaac, Jacob Elordi e Mia Goth.
A diretora de elenco Robin D. Cook faz questão de dividir o crédito com o diretor. “Quando um ator faz um teste comigo, eu consigo ver o potencial, mas del Toro consegue ver o resultado. Ele vai um passo além. Sempre consegue enxergar o produto final, e é impressionante quando você assiste ao filme de verdade”, diz Robin.
Quando del Toro conheceu Oscar Isaac, não demorou para oferecer o papel a ele. “Começamos falando sobre nossos pais, sobre sermos pais, sobre arte, a indústria e o que buscávamos, todos esses temas. Depois de mais ou menos uma hora, ele começou a falar um pouco sobre Frankenstein. Continuamos conversando e, no fim, ele disse que eu precisava interpretar Victor”, lembra Oscar.

Del Toro imaginou o famoso médico como alguém meio astro do rock, meio aventureiro, mas, acima de tudo, como uma alma atormentada. “Como todo tirano, Victor acredita ser uma vítima. Todo tirano adora bancar a vítima, se fazer de coitado enquanto destrói a vida de todo mundo. Esse é Victor”, conta o diretor.
Uma das vidas que Victor destrói é também uma vida que ele gerou: a Criatura. Para sua atuação, Jacob se inspirou na dança japonesa butô e até em sua golden retriever. “Existe uma inocência no jeito como minha cachorra se move e em como ela ama”, diz o ator.
Jacob teve a sorte de começar o filme em uma posição muito parecida com os primeiros passos da Criatura. “Eu precisava me reorganizar por completo e me tornar uma nova pessoa, que é exatamente a jornada que a Criatura percorre. Eu não sabia que existia todo um universo por trás dos filmes de monstro, muito além do terror. É quase uma religião. Tenho um respeito profundo por esses filmes”, diz ele.

Completando o elenco, Mia interpreta dois papéis: Claire, a amada mãe de Victor, que morreu quando ele ainda era criança, e Elizabeth, a mulher por quem ele se apaixona na vida adulta, que por acaso está noiva de seu irmão, William (Felix Kammerer). “Elizabeth entra na trama depois de ter estudado em um convento. Eu tinha acabado de desembarcar em Toronto, e toda aquela experiência era muito nova para mim. Comecei a ver muitos paralelos entre mim e Elizabeth pelo que eu estava vivendo fora do set. Foi preciso percorrer um longo caminho até eu finalmente perceber que é nos meus momentos mais silenciosos, quando consigo ser a minha versão mais autêntica, que ela existe”, reflete Mia. No filme, Claire e Elizabeth se diferenciam pelos figurinos luxuosos: a primeira mergulhada em tons de vermelho profundo, a segunda vestida de verde-floresta.

Para se preparar para Frankenstein, a figurinista Kate Hawley, indicada ao Emmy®, começou pesquisando os estilos do período em que o filme se passa, em meados do século 19. Ela se interessou especialmente pelas tendências de moda masculina da época e por como elas foram interpretadas por artistas daquele período, além de nomes que vieram depois, como o bailarino Rudolf Nureyev, nascido na União Soviética. “Eu adorava toda aquela imponência ao redor dele e a irreverência com que ele vestia aquelas roupas. Del Toro queria que Victor fosse um dândi, com um toque punk”, diz ela.

Del Toro incentivou a figurinista a manter o equilíbrio entre rigor histórico e liberdade criativa. “Ele me disse que não queria nada com aquela cara engessada de filme de época. No fim das contas, é uma fantasia, então nos permitimos certas liberdades”, explica Kate. Victor tem suas calças xadrez estilo rock’n’roll e suas inconfundíveis luvas vermelhas, enquanto Elizabeth usa xales clássicos leves e etéreos, além de chapéus com véu.
“A linguagem religiosa é uma parte importante de Elizabeth, e os chapéus funcionam como uma auréola. Usei véus coloridos para me afastar da tradição”, explica Kate. Para criar o guarda-roupa da personagem, a figurinista se inspirou na anatomia dos besouros e em estudos botânicos.
Embora o visual da Criatura também tenha sido pensado para parecer “de outro mundo”, a inspiração do diretor veio mais das artes do que da ciência. “Eu queria que ele lembrasse uma estátua de mármore”, explica del Toro. Ele e Mike Hill, maquiador e mestre em próteses, começaram a planejar a aparência da Criatura anos antes de Jacob pisar no set. O resultado dessa parceria reflete a época e os campos de batalha brutais que vieram com ela. A Criatura é um “belo monstro”, costurado a partir dos corpos mutilados da Guerra da Crimeia. Jacob usou 42 peças protéticas para dar vida a esse ser comovente.

“A Criatura é basicamente um soldado ressuscitado de uma vala comum. A maquiagem precisava refletir isso, mas com beleza”, conta del Toro. Mike Hill concorda: “Victor Frankenstein não é um açougueiro. Ele está tentando criar o homem perfeito.”

Del Toro comandou sua equipe durante 100 dias de filmagens pelo mundo, até chegar às colinas da Escócia e às grandes propriedades históricas da Inglaterra. “Algo que fica claro neste filme é que tudo foi criado, e a maioria das coisas foi feita à mão. Temos cenários reais, locações reais. Viajamos em caravana por horas e horas para encontrar um único cômodo com a aparência certa”, explica o diretor. Isso também deu a ele a chance de filmar em uma locação que tem uma ligação especial com um de seus filmes favoritos de Stanley Kubrick: Wilton House, uma das residências usadas para representar a casa de Frankenstein, também aparece em Barry Lyndon.

Na trilha sonora, del Toro e sua equipe também se inspiraram na ideia de unir partes aparentemente distintas para formar um conjunto perfeito. Alexandre Desplat, colaborador de longa data do cineasta e compositor vencedor do Oscar®, reuniu uma orquestra, um coral de 80 vozes, órgãos de igreja, sons eletrônicos sutis e os timbres da violinista norueguesa Eldbjørg Hemsing para criar um espelho sonoro da energia visual de Frankenstein.
“Precisei me lançar a outros caminhos, explorar territórios mais distantes, acompanhando emoções que vão do íntimo e delicado ao grandioso, apaixonado, lírico e insano. Para uma trilha funcionar, é preciso encontrar a alma do filme e criar outra dimensão de sensação, poesia e espiritualidade, que acompanhe o filme e amplifique suas emoções”, diz Alexandre.
Del Toro seguiu essa filosofia para todos os aspectos de Frankenstein, o filme que sonhava em fazer desde que assistiu à versão de James Whale, aos 7 anos. Da direção de arte e dos figurinos às locações e à trilha sonora, tudo precisava funcionar em conjunto: “Não são ideias isoladas acontecendo ao mesmo tempo. É uma sinfonia. Ser diretor é como reger uma ópera, conduzindo cada elemento para o mesmo ponto emocional.”
Frankenstein já está disponível na Netflix e em cinemas selecionados.


















































































