





Encare “Bête Noire”, de Black Mirror, como uma perfeita representação do que é manipulação psicológica.
Recheado de humor ácido, o episódio da temporada 7 conta a história de Maria (Siena Kelly), uma bem-sucedida pesquisadora de alimentos que vê seu mundo virar de ponta-cabeça quando Verity (Rosy McEwen), uma colega do tempo da escola, chega à empresa para participar de um grupo focal que tem o objetivo de testar a mais nova criação de Maria: uma versão do famoso chocolate Hucklebuck que leva geleia de missô.
Há algo de estranho em Verity, que logo passa a fazer parte do dia a dia de Maria após ser contratada como assistente de pesquisa — uma vaga que, aliás, Maria nem sabia que estava aberta.
Por ser bastante pragmática, Maria vai ficando frustrada com as aparentes pequenas transgressões de Verity. Por exemplo, o tom de uma discussão sobre o restaurante de fast food Barnies (que os fãs reconhecerão do episódio “Manda quem pode”, da temporada 3, e “A Joan é péssima”, da temporada 6) sobe quando Maria corrige Verity por chamá-lo de “Bernies” — até ela descobrir que a amiga estava certa e ela própria estava errada o tempo todo. Mas... será mesmo?
Em outra ocasião, Maria perde uma reunião que ela nem sabia ter sido marcada e, em seguida, Verity diz que a amiga deixou de fora um ingrediente de uma receita que ela tinha certeza de que havia listado. Maria chega ao limite após ser acusada de beber o leite de amêndoas de uma colega, Luisa (Hannah Griffiths), algo que seria impossível devido à sua alergia seríssima a nozes.
Depois de testemunhar Verity bebendo todo o leite a goladas bem na sua frente, Maria fica perplexa e furiosa quando se depara com um vídeo em que ela mesma aparece como a culpada. E, ao tentar explicar aos colegas sua alergia a nozes, ninguém tinha a menor ideia do que ela estava falando. Era como se alergia a nozes jamais tivesse existido. É aí que ela perde a cabeça.

Maria parte para cima de Verity depois desse incidente e é prontamente dispensada do trabalho para tirar uma folga e buscar ajuda psicológica. Em vez de descansar e relaxar, ela decide confrontar a colega de trabalho, que — pasmem — está morando em uma mansão. A discussão vira agressão, e Verity usa seu pingente para chamar a polícia: ela apenas diz que os policiais estão lá, e a porta se abre com eles rendendo Maria. Seguindo o comando de Verity, a polícia acredita que Maria invadiu a residência e está ameaçando a outra mulher com uma faca. Enquanto é algemada, Maria pega a arma do policial e mata Verity. Em seguida, ela assume o controle do pingente de Verity e emite um comando que altera a realidade. Assim, ela passa a ser a imperatriz do Universo.
“É divertido fazer parecer que Maria perdeu absolutamente tudo nos últimos momentos para, então, fazê-la voltar como uma fênix renascida com a ajuda do mesmo dispositivo que a colocou nessa fria”, conta ao Tudum o criador e diretor executivo Charlie Brooker. “É como o final de uma piada, mas com uma dose de bizarrice”.[Maria’s]
No roteiro original, o fim do episódio era um pouco mais sombrio: Brooker revela que Maria estaria “vestindo um uniforme quase fascista”, mas a versão que foi ao ar mostra a personagem com uma estética que lembra uma diva pop. “Ficou mais para Game of Thrones”, comenta. “Tipo uma mistura de Beyoncé com Khaleesi”. [to be wearing]

No episódio, Verity explica que o pingente é só um controle que se liga a um conjunto de servidores, desenvolvidos por ela própria para alterar a realidade: “Tecnicamente, ele não está mudando nada. Ele só está sintonizando a nossa frequência corporal para uma das realidades paralelas onde seja lá o que eu disse sempre foi verdade”.
No fim, acabamos descobrindo que, na época da escola, Maria começou o boato de que Verity tinha um caso com um professor. Por conta disso, Verity sofreu um bullying pesado.
“Maria não admite que foi isso que aconteceu, não pede desculpas de forma explícita nem se explica”, conta Kelly, a intérprete de Maria, ao Tudum. “Eu gosto da ideia de que podemos ter duas pessoas com verdades e lembranças diferentes sobre algum evento”.
O fato de que Maria não se lembra do motivo pelo qual começou o boato é algo que machuca Verity, que já buscou em vão a felicidade em diversas realidades — inclusive uma em que ela se casa com Harry Styles e em outra em que ela própria é a imperatriz do Universo.
“Cabe a nós escolher se nos apegamos ou não a algo”, acrescenta Rosy McEwen, que interpreta Verity. “O fato de a minha personagem não ter conseguido se desapegar é meio de cortar o coração”. [of it]
Brooker, por sua vez, enxerga semelhanças entre Verity e outro vilão de Black Mirror.
“Ela me lembra um pouco o Robert Daly de ‘USS Callister’: um gênio da tecnologia claramente descompensado. São pessoas com muitos traumas, mas isso não justifica seus atos”, explica.

Antes de decidir arruinar a vida de Maria, Verity foi primeiro atrás de Natalie, a amiga de Maria que a perseguiu no ensino médio. Uma ligação telefônica com o marido de Natalie revela que ela surtou e tirou a própria vida. Algumas semanas antes, Natalie ficou paranoica, acusando todo mundo de mentir, após ter sofrido manipulação psicológica de Verity.
A expressão francesa refere-se a algo detestável ou que causa muito incômodo. O título do episódio é mencionado quando Gabe (Ben Bailey Smith) apresenta Maria ao chefe deles, Sr. Ditta (Ravi Aujla), como a “feiticeira-chefe” do “Bête Noire com flocos de chili”.
Brooker revela que o episódio poderia ter tido um título totalmente diferente.
“Não tínhamos tanta certeza sobre o título que usaríamos no episódio. Ele chegou a se chamar ‘Anel da Verdade’, pois havia uma versão em que Verity usava um anel, e não um pingente”, conta. “Mas achei que ficaria óbvio demais. Gosto de títulos que evocam um certo mistério”.
Assista a todos os seis episódios da temporada 7 de Black Mirror agora mesmo.










































































