





Na temporada 7 de Black Mirror, o episódio “Eulogy” deixa o terror de lado e acompanha a história de um homem que precisa relembrar o passado a partir de uma nova perspectiva.
A comovente história, que foi escrita por Charlie Brooker, criador da série, e pela roteirista e dramaturga Ella Road (Doctor Who, Agência), gira em torno de Phillip (Paul Giamatti): um cara bem retraído, que vive isolado. Um dia, ele recebe uma ligação de um agente que trabalha para uma mulher chamada Kelly Royce (Patsy Ferran), explicando que a mãe dela, Carol, morreu. Philip e Carol namoraram no passado, e a família gostaria que ele participasse do velório.
Phillip então recebe um pacote da Eulogy: uma tecnologia que permite entrar em fotos antigas e selecionar lembranças para o velório de uma pessoa. O programa é capaz de processar até 1.500 fotos e recomenda no mínimo seis imagens, mas Philip seleciona apenas três Polaroids que estavam em uma caixa de sapatos escondida no sótão, junto com diversas outras fotografias.

Na hora de analisar as fotos, Phillip e sua conselheira gerada por IA, a Guia (também interpretada por Patsy), encontram um problema: ele não consegue se lembrar do rosto de Carol, e nenhuma das fotos revela esse detalhe porque ele rabiscou, queimou ou cortou todas elas na tentativa de apagá-la de sua vida.
Nessa imersiva viagem ao passado, Phillip se recorda de Carol como uma violoncelista que o magoou durante todo o relacionamento que tiveram, uma ideia que é sempre contestada pela Guia. Em um determinado momento, os dois entram na foto de uma festa de Halloween em 1991, e Phillip diz que Carol passou “a noite toda” sentada com um cara fantasiado de Diabo enquanto ele conversava com Emma, uma colega de trabalho com quem ele nega ter qualquer envolvimento romântico. A Guia mostra que Carol na verdade parecia tentar se afastar do cara fantasiado, e Philip acaba reconhecendo que estava exagerando.
Algumas outras lembranças dele são que Carol foi trabalhar na orquestra de O Fantasma da Ópera no West End de Londres depois de uma briga feia que tiveram; que ele próprio ficou com Emma e discutiu com Carol no telefone; e que eles tiveram uma separação difícil, que fez Phillip guardar todas as memórias do relacionamento no fundo de seu coração e nunca mais querer olhar para elas. Até agora.

Phillip se lembra de uma viagem que fez até Londres para pedir Carol em casamento: eles estavam em um restaurante chique, mas as coisas terminaram mal. Ele também se recorda de que ela estava calada, um pouco estranha e não quis beber o champanhe caro que ele comprou. Quando ele finalmente fez o pedido, depois de entornar várias taças para tomar coragem, Carol não disse nada. Irritado, ele exigiu uma resposta, mas ela simplesmente foi embora do restaurante.
Nesse momento, a Guia revela que ela própria é uma espécie de adaptação de Kelly, feita para garantir a precisão ao longo do processo. Como tem as memórias da moça, a Guia traz um novo contexto para aquela fatídica noite. Carol quase não falou nada porque estava grávida de Kelly depois de uma transa casual. Ela chegou a escrever uma carta para Phillip, mas ele estava tão bravo e bêbado que nem viu o papel no chão do quarto de hotel.
No entanto, uma camareira acabou arrumando as coisas e guardou tudo, o que significa que a carta ainda está escondida entre os pertences dele. Phillip então encontra a carta de Carol e fica muito comovido, já que no texto ela admite que só dormiu com o colega porque estava brava com Phillip por causa da situação com Emma. Ela também convida Phillip para encontrá-la depois da matinê no dia seguinte e diz que entende se ele nunca mais quiser vê-la.
Só que ele não foi naquela matinê.
Com todas essas informações sobre o término em mãos, Phillip resolve ouvir uma fita com uma gravação de Carol tocando violoncelo. Ele se deixa envolver pela música e vê uma foto antiga de si mesmo observando Carol tocar, e essa imagem vai entrando em foco. Assim, ele finalmente se lembra do rosto dela e esboça um sorriso em meio às lágrimas.
Sobre o final melancólico do episódio, Brooker diz ao Tudum que Phillip “percebe que transformou a namorada em vilã na própria cabeça”.
“Essa era a narrativa dele, que Carol era uma pessoa péssima, que foi horrível com ele e fez coisas terríveis”, explica Brooker. “Ele ganha uma perspectiva nova e passa a encarar de outra forma a situação que ela estava enfrentando, algo que naquele momento ele não conseguia entender. O resultado é que ele se apaixona por ela de novo no final, e há uma melancolia nisso porque agora ela está morta”. [at the time]
Bem no finalzinho do episódio, vemos que Philip vai ao funeral de Carol e troca um olhar silencioso com Kelly. Paul achou esse momento interessante.
“Tem algo ambíguo naquele aceno que a [Kelly] faz para o meu personagem”, diz ele ao Tudum. “Será que ela esteve naquelas memórias, de algum jeito? Será que a conexão dela com a [Eulogy] era ainda maior? Como essa tecnologia realmente funciona? Tem algo muito lindo nessa cena, essa sensação de... a gente se conhece, mas não se conhece, mas se conhece, sim. É meio como encontrar uma pessoa importante para você”.

Charlie Brooker e Ella Road se inspiraram na série documental The Beatles: Get Back, de Peter Jackson. Lançada em 2021, a série lançou mão da tecnologia para aprimorar imagens antigas e extrair os vocais de John Lennon, permitindo que o público atual conseguisse ver e ouvir materiais de arquivo de uma forma mais nítida.
“Eulogy” é uma história que gira ao redor da morte, e Brooker comenta que é uma ironia muito triste que seu pai, que morreu há pouco tempo, não tenha tido a chance de assistir ao episódio.
“Eu ia fazer um discurso no velório dele e tivemos que procurar fotos para projetar na parede. A gente esquece que, antes dos smartphones, ninguém tinha tantas fotos assim”, conta ele. “Isso significa que essas imagens realmente trazem lembranças, porque existem poucas delas, e só de momentos específicos. Além disso, elas eram imperfeitas. Hoje em dia, tiramos uma foto e podemos fazer ajustes para parecer que ninguém piscou ou que todo mundo está feliz. Mas, antes, metade das minhas fotos ficavam claras demais. […] Então, essas fotografias eram muito especiais. E, se em um momento de raiva, você rabiscava a cara de alguém, pronto: aquele artefato precioso era destruído para sempre”.

Para Patsy, que interpreta a Guia, o episódio é uma história sobre aceitar que somos humanos. “Todo mundo erra, então precisamos ser um pouco menos duros com nós mesmos e com as outras pessoas”, comenta ela.
“Nessa história, a IA alivia o luto e a sensação de perda, e tem um lado muito bonito nisso”, diz Paul à Netflix. “Acho que o personagem é um pouco pressionado por ela, mas, no fim das contas, acaba sendo algo bom. Espero que o público se emocione com o episódio […], e que a história faça as pessoas refletirem um pouco sobre si mesmas, suas vidas e a função positiva que a IA pode ter”.
A temporada 7 de Black Mirror está disponível na Netflix.
Com colaboração de Maddie Saaf-Welsh.












































































