





O episódio “Hotel Reverie” de Black Mirror tem um final feliz de verdade? Essa discussão dá pano para a manga.
Nessa história sáfica, a atriz Brandy Friday (Issa Rae) está cansada de sempre ser escalada para os mesmos tipos de papel e sonha em participar de um filme atemporal e romântico, como o clássico hollywoodiano Casablanca.
Para sua sorte, Judith Keyworth (Harriet Walter), executiva do Keyworth Pictures, decide apostar no ReSonhar, um software que insere estrelas modernas em filmes antigos para fazer remakes interativos, em uma tentativa de salvar seu estúdio das dificuldades financeiras.

Brandy agarra a chance de encabeçar a adaptação do seu filme favorito, Hotel Reverie, no papel do herói Alex Palmer, com direito a troca de gênero do personagem. A produção também conta com sua atriz preferida, Dorothy Chambers (Emma Corrin), como seu par romântico, no papel de Clara. Ao entrar na versão imersiva gerada por IA do filme de 1949, Brandy logo descobre que se manter fiel à história original é mais difícil do que parece.
O projeto sai do controle quando Brandy perde uma deixa importante, criando um furo na trama que ela precisa corrigir para acionar os créditos finais, sob o risco de ficar presa na realidade alternativa para sempre.
Quando parecia que ia dar tudo certo, um engenheiro derruba café em um servidor, deixando o ReSonhar offline com Brandy ainda dentro. Apesar de o programa voltar em minutos, meses se passam para Brandy e Dorothy no Hotel Reverie, e elas acabam se apaixonando.

No clímax do filme, Clara mata a tiro o próprio marido, um desvio grave da história original, e sofre um ferimento fatal ao abrir fogo contra um detetive. Com Clara morrendo nos seus braços, Brandy reluta em dizer sua última fala, com medo de deixar Dorothy para trás quando o filme terminar. Mas ela acaba pronunciando as palavras que a libertam da simulação e acorda no mundo real ainda abalada pelo que aconteceu.
Apesar das mudanças não intencionais da trama, o novo Hotel Reverie se torna um sucesso no streaming. Em um gesto tocante, Kimmy (Awkwafina), a representante do ReSonhar que orientou Brandy nas filmagens, dá a ela um telefone que permite conversar a qualquer momento com Dorothy, a atriz que interpretou Clara.
Charlie Brooker, criador e showrunner de Black Mirror, sabia desde o início o que queria para o desfecho do episódio. “Eu sabia exatamente como deveria terminar. O fato de Dorothy e Brandy [Dorothy and Brandy] terem uma espécie de romance à distância provoca um misto de emoções”, declara ao Tudum.
A reconexão delas por telefone seria o início de um novo romance? “Brandy quase quis ficar naquele mundo. O que vem a seguir ainda é uma incógnita, pois já mostramos que é possível entrar no filme. E quem disse que elas vão parar por aí?”, comenta Charlie.
Emma Corrin, que interpreta Dorothy, afirma que o final ressalta “a beleza de duas pessoas que se encontraram em uma circunstância extraordinária”, mas também é triste porque “a versão da Dorothy com quem Brandy conversa só existe nessa bolha”.
Para Awkwafina, a escolha de Brandy de sair do remake de Hotel Reverie feito com o ReSonhar e depois se reconectar com Dorothy pelo telefone é uma “forma legal de imaginar o que aconteceria, porque não podemos largar nossas vidas para viver em um filme antigo”. Os telefonemas entre as duas “não são saudáveis, mas Brandy não quer esquecer. Achei que o final gera um misto de emoções”.
Já Issa Rae, que vive Brandy, considera o final de sua personagem “meio feliz”.
“Como espectadora, é um misto de emoções profundas. Fico triste porque testemunhei a conexão que elas tiveram, a felicidade de Brandy e as duas finalmente se sentindo vistas. [Por outro lado,] Clara e Dorothy estão condenadas a um final que não vai mudar. Brandy carrega esses sentimentos como parte do modelo de uma conexão que ela desejaria e possivelmente buscaria no mundo real”, opina a atriz.
“Existe uma versão em que ela se torna uma dessas pessoas que se apaixona por uma IA, e eu não quero isso para ela. Espero que Brandy possa pegar todas as partes boas dessa conexão e fazer algo com elas no mundo real [in the real world]”, completa Issa.
“Gosto de pensar que eu toco um pouquinho melhor do que aquilo, mas, sim, era eu. Foi piorando conforme a cena avançava. Pratiquei a música de verdade só para ter resquícios dela sendo tocada muito mal. Mas a diretora, Haolu Wang, disse que Brandy não sabia nada. E foi isso.”

Não exatamente. O episódio surgiu a partir de várias ideias de Charlie, incluindo uma história de terror sobre alguém que restaura imagens antigas de um filme mudo de vampiros dos anos 1930.
“Em uma das minhas ideias, alguém estava restaurando um filme de terror antigo e percebia que podia falar com uma pessoa dentro dele. Outra ideia envolvia inserir um novo ator em um filme antigo do James Bond, revela Charlie.
“Discuti bastante com a corroteirista [co-writer] Bisha K. Ali. Assistimos a uns filmes do Bond que eu não via há um tempo. A piada seria que uma pessoa desajeitada acabava indo parar no filme [film] por engano, como se fosse a pessoa errada sendo jogada no papel de James Bond”, acrescenta o produtor executivo.
No entanto, devido às semelhanças evidentes com a trilogia de Austin Powers, protagonizada por Mike Myers, e ao orçamento enorme que uma paródia de Bond exigiria, a ideia não deu certo. Foi então que Charlie assistiu ao drama romântico britânico dos anos 1940 Desencanto, e a história do “Hotel Reverie” finalmente tomou forma.
“Ah, um romance clássico. Que tal um romance vintage? É isso que precisa ser feito. Um filme romântico vintage, com uma história mais simples. E tem um quê de De Volta para o Futuro, [about it] pois a história é alterada e é preciso retomar o controle dela”, compara Charlie.
A temporada 7 de Black Mirror está disponível na Netflix.




































































