Fora de cena, mas dentro do quadro com o trio protagonista de "Dom de Iludir". - Netflix Tudum

  • Entrevista

    Fora de cena, mas dentro do quadro com o trio protagonista de Dom de Iludir

    Conversamos com Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costta sobre preparação, personagens e histórias do set.

    Texto original de Ana Elisa Faria
    29 de out. de 2026
⚠️ ALERTA DE SPOILERS

Nanda Costta elogia Alice Wegmann por pilotar uma lancha nas gravações de Dom de Iludir. Alice corrige: “Era um botinho”. Marieta Severo também entra na conversa sobre as cenas mais físicas da série e aconselha as colegas de elenco a se prepararem para continuar se jogando no chão em cena aos 80 anos — a atriz completa oito décadas de vida em 2 de novembro. 

No Rio de Janeiro para a pré-estreia da produção, a gente reuniu as três protagonistas do melodrama da Netflix para falar sobre a construção de Lúcia e Maíra Rossetti e Irina Petrov. Entre brincadeiras e lembranças do set, elas contam como foi o trabalho com o diretor-geral da produção, Mauro Mendonça Filho, o que encontraram no apartamento dos Rossetti e como as obras de arte e a coleção de bonecas ajudam a entender as personagens. Você lê o papo completo com o trio abaixo.

As atrizes Alice Wegmann, Marieta Severo e Nanda Costta posam para fotos em um ambiente repleto de molduras de quadro douradas
FOTO POR BOB WOLFENSON

Que orientação do diretor, Mauro Mendonça Filho, ajudou vocês a encontrar o tom entre o melodrama e o suspense? 

Marieta Severo: O Mauro tem um fascínio muito grande pelo modo de trabalhar um texto no teatro. Ele gosta de chamar de trabalho de mesa. São poucos os diretores que têm necessidade disso, mas o Mauro parte muito daí, dos fundamentos. É quando você começa a ouvir o colega, a ler, a ter uma ideia, ver o que o diretor diz, repetir uma cena. A gente foi construindo a partir desse primeiro entendimento da história e dos personagens, até chegar à improvisação. 

Ele gosta de botar música, de fazer a gente começar a tatear as emoções, as relações, tentando fazer alguma coisa com aquilo que capturou no trabalho de mesa. Nesse trabalho, ele vai dando dicas do que está pensando da série. A gente fica com as antenas todas ligadas, captando uma palavra aqui, outra ali, que vão traçando o caminho que temos que percorrer juntos. É um caminho só, e ele é que sabe que caminho é esse. 

Uma pequena arte ilustra um adereço dourado separando os blocos de texto
Para entrar nessa atmosfera, a gente precisa de um maestro
Alice Wegmann
Uma pequena arte ilustra um adereço dourado separando os blocos de texto

Nanda Costta: E ele adora atores. Como filho de uma atriz [Rosamaria Murtinho] e de um ator [Mauro Mendonça], ele tem um jeito especial de falar com a gente. Nas leituras dos primeiros episódios, ainda não estava o elenco inteiro e, vira e mexe, ele fazia o papel de ator também, brilhantemente. O Mauro é muito cirúrgico, sabe muito bem o que quer e vai lapidando de uma forma muito autoral. Tem muita mão dele na nossa interpretação. 

Alice Wegmann: O Maurinho vai muito pelo caminho do afeto na direção. Tem cenas muito delicadas ali, de emoção dessa família, dessa mãe, dessa filha. E também com a Irina, lá na Ilha do Governador, as cenas dela com a irmã. Para entrar nessa atmosfera, a gente precisa de um maestro, de alguém conduzindo e fazendo um set gostoso. A gente teve a condução do Maurinho Mendonça, da Gabi Amaral e da Dani Carvalho [Gabriela Amaral Almeida e Daniela Carvalho, responsáveis pela direção episódica]. Nunca tinha trabalhado com as duas nem com o Maurinho. Os três foram uma grata surpresa, porque, apesar das formas diferentes de dirigir, conseguiram achar essa unidade. Foi muito bonito. 

A atriz Marieta Severo, uma mulher idosa de cabelos grisalhos e presos usa um vestido preto enquanto segura uma grande moldura dourada
FOTO POR BOB WOLFENSON

O apartamento dos Rossetti tem um papel importante na trama de Dom de Iludir. Como foi gravar em um imóvel que é a casa de uma família? O que esse espaço trouxe para as cenas? 

Marieta Severo: A gente se alimenta de tudo. Ficamos no escuro, tateando, e tudo que vem, tudo que é falado, tudo que você vai percebendo entra na criação do seu personagem. Entrar naquele cenário foi impressionante para a nossa família, não é, minha filha? [brinca com Alice] Eu nunca tinha entrado num apartamento assim na minha vida. É um apartamento que tem mais de 3 mil metros quadrados. Eu nem sabia que existia isso! 

Entrar naquele universo já te dá elementos. Como são aquelas pessoas que vivem com muita naturalidade num apartamento de 1930, todo art nouveau, com peças trazidas de Versalhes? O que isso fala dessa elite que construiu o apartamento e da que está morando ali, que é a nossa família? Ao mesmo tempo, tem uma coisa muito bonita: a Lúcia e o marido vivem de arte. São colecionadores do que há de mais lindo da arte brasileira da década de 40, de 50. As paredes têm Portinaris, Di Cavalcantis. 

Uma pequena arte ilustra um adereço dourado separando os blocos de texto
Essa cadeira é uma obra de arte? Posso sentar nela? É da cenografia ou é da casa?
Nanda Costta
Uma pequena arte ilustra um adereço dourado separando os blocos de texto

Alice Wegmann: Eu acho que esse apartamento e a casa da Ilha do Governador, assim como os quadros, são praticamente outros personagens nessa história. A gente vê essa cidade partida, o Rio de Janeiro, como a Marieta falou: esses universos muito distantes e, ao mesmo tempo, como as histórias conversam, se conectam e como tem um pouco de um no outro, de alguma forma. É muito interessante essa fusão que a história faz. 

Nanda Costta: A minha personagem vem da Ilha do Governador. Quando eu entrava nesse ambiente de pé-direito gigante, com tudo aquilo que tinha no apartamento, sempre pedia muita licença. Eu perguntava: “Essa cadeira é uma obra de arte? Posso sentar nela? Posso ficar de perna cruzada na poltrona ou não? É da cenografia ou é da casa?”. Tem esse respeito, porque as coisas são muito imponentes. Eu gosto de ficar confortável, e isso trazia um desconforto. Parecia um museu: “Tiro meu sapato? Vou arranhar alguma coisa?”. 

Mas, ao mesmo tempo, a minha personagem não está nem aí. Por ela, sai arrastando tudo, quebrando tudo. É muito legal quando se fala “ação” e o diretor fala o que você pode jogar para cima, derrubar, rasgar, quebrar. 

Marieta Severo: O Rio de Janeiro é um personagem também nessa série. A vista desse apartamento é impressionante. É um cartão-postal do Rio de Janeiro. Há vários outros momentos também, como quando elas [as personagens de Alice e Nanda] estão em Angra dos Reis, que tem uma floresta. Mostra muito o Rio de Janeiro de uma maneira fascinante. 

A atriz Alice Wegmann, uma mulher jovem, de cabelos castanhos e presos usa vestido vinho enquanto segura uma grande moldura dourada
FOTO POR BOB WOLFENSON

Teve alguma referência fora do roteiro — um filme, um livro, uma peça, uma obra de arte — que ajudou vocês a entender melhor a Lúcia, a Maíra e a Irina?

Alice Wegmann: Minha maior inspiração foi Marieta Severo e Nanda Costta. 

Nanda Costta: Ah, amiga! 

Marieta Severo: Bonitinha! 

Alice Wegmann: Eu olhava para elas e me sentia absolutamente inspirada. 

Nanda Costta: Você que é uma inspiração, amiga. Você é demais. 

Alice Wegmann: Mas acho que não teve uma coisa específica, não. Acho que foi a vida mesmo: essa loucura, essa complexidade, essas surpresas, tudo isso junto. 

Marieta Severo: Foi um mergulho emocional grande, com muitas complexidades mesmo. Você não entende o que tal coisa faz ali. O que está atrás disso? O que motiva isso? Era um mundo suficientemente rico para a gente desvendar. 

Tem algum momento especial dos bastidores que vocês gostariam de compartilhar? Algo surpreendente, triste ou engraçado que tenha acontecido durante as gravações da série? 

Alice Wegmann: Tranquei a Marieta no closet onde ficam as bonecas da minha personagem, né? Foi um grande evento. E subi num telhado com a Nanda. As gatas subiram no telhado. 

Marieta Severo: Eu apanhei da Nanda. 

Nanda Costta: Oh, meu Deus! 

Alice Wegmann: Muitos momentos inesquecíveis nessa série. 

Nanda Costta: Eu acho que foi intenso aquele casamento também [mostrado no episódio 7]. Fiquei muito impactada com a cena pronta. O Maurinho arrasou demais. 

Alice Wegmann: A gente ficou muito tempo agachada no chão nessa cena. Marieta também. 

Uma pequena arte ilustra um adereço dourado separando os blocos de texto
Preparem-se para os 80, para ainda estarem se atirando no chão
Marieta Severo
Uma pequena arte ilustra um adereço dourado separando os blocos de texto

Vocês têm cenas muito físicas, como os desmaios da Maíra, as brigas acaloradas entre mãe e filha, a cena do tiro, com o José de Abreu. A preparação para esses tipos de cenas é diferente? 

Nanda Costta: Alice pilotou uma lancha, né? 

Alice Wegmann: Foi mais um barquinho. 

Nanda Costta: Ah, mas foi pela primeira vez. Ela arrasou. 

Alice Wegmann: Ela está me valorizando bastante, tá? Não foi exatamente uma lancha. Era um bote, um botinho, que eu liguei e tchau. 

Nanda Costta: Não. Você foi até o píer. Você arrasou. Fiquei orgulhosa. 

Alice Wegmann: Achei que eu ia afogar a Nanda, coitada. A gente ali naquele botinho... Eu falei: “Ai, meu Deus do céu!”. Eu não sabia pilotar barco, mas foi divertido. 

Marieta Severo: A cena do tiro foi toda resolvida ali na hora, com o Maurinho, com marcações: “Agora vai para lá. O tiro vem daqui, você vai daqui, você vai cair para cá”. Não teve uma preparação para levar um tiro. Você que leva um tiro, não sabe. 

Alice Wegmann: Marieta malha, faz a fisioterapia dela três vezes por semana. Ela se cuida, amor. 

Marieta Severo: Senão, a essa altura, não dá para se atirar no chão, não, viu, meninas? Preparem-se para os 80, para ainda estarem se atirando no chão.

Nanda Costta: Já estou puxando os meus ferros. Mas isso da preparação que ela falou é verdade. A gravação foi feita em duas diárias, mais ou menos, e a gente também teve dois dias de ensaio da cena do casamento. Nas cenas em que a Irina pilotava uma moto, por exemplo, eu tinha dublê. Eu colocava o capacete, fazia um carão, e conduziam a moto para mim. Depois eu tirava o capacete e pronto. 

Um grande quadro em tons de azul mostra uma figura adulta debruçada sobre uma criança. O quadro é envolto em uma moldura dourada. Abaixo dele, quadros de família e uma escultura adornam um pequeno aparador

O quadro Mulher com Filho Morto, de Portinari, ocupa um lugar central na série. É uma pintura dramática, cheia de tristeza, e conversa muito com as dores da Lúcia. Essa obra ajudou você, de alguma forma, a construir a relação de Lúcia com Maíra?

Marieta Severo: O terreno da interpretação é de uma magia absoluta. Eu tenho sempre os meus caderninhos, em que vou fazendo recortes e anotando coisas. E esse quadro, lógico, estava na frente. Você está em cima de uma imagem simbólica, que tem um valor emocional enorme, que não é desvendado até o final. O bonito é isso: depois que a história é contada, as peças vão se encaixando e vão fazendo sentido. 

Maíra tem uma grande coleção de bonecas. Para você, o que ela busca cada vez que compra uma nova boneca? 

Alice Wegmann: Existe ali uma tentativa de preencher um vazio. É uma coisa meio compulsiva, e ela tem uma obsessão por essas bonecas. Acho que não é tão saudável: uma mulher de 30 e poucos anos dando o valor que ela dá para essas bonecas. Claro, tem objetos que têm um valor, um apego emocional, mas acho que ela está em um movimento diferente. Tanto que a mãe bloqueia o cartão. Essa menina vive em um palácio, tem tudo o que quiser, mas nada é suficiente. 

A atriz Nanda Costta, uma mulher jovem, tem cabelos escuros presos e usa um vestido estampado de flores enquanto segura uma grande moldura dourada
FOTO POR BOB WOLFENSON

Irina interpreta diferentes papéis conforme a pessoa que está diante dela. Como foi construir essas versões que ela apresenta aos outros e a mulher “verdadeira” que existe por trás delas? 

Nanda Costta: Olha, eu fui descobrindo fazendo. Ela já estava construída lindamente no roteiro, uma obra fechada, então eu sabia por quais coisas ela ia passar. Mas você vai descobrindo no trabalho de mesa. E aí, no set, vai botando figurino, vai entrando a arte, vai entrando a trilha. A direção do Maurinho era muito precisa. Ele sabia exatamente o que queria. 

A Irina é mãe muito nova. Ela diz que não teve nem chance de sonhar. Teve que cuidar das filhas e foi deixando o resto de lado. Sempre foi muito manipulada e controlada pelo pai, com muitos medos. Aí perde o marido e acaba não sendo uma mãe presente. Isso afasta a filha mais velha, a Natália, que muda o DNA dessa família trambiqueira: ela faz outro caminho. E também tem uma filha pequena, a Tati. 

A Maíra transforma a Irina. Acho que quem leva um golpe também é ela, que não estava esperando passar por isso. Ela se envolve, se apaixona, e o pai fala: “Golpista não se apaixona”. Só que já foi. E aí ela vai se redescobrindo também. A Irina está o tempo inteiro vulnerável, em transição. Isso deixa a personagem mais rica. Não consigo defini-la. Ela está em construção.

Assista à temporada completa de Dom de Iludir na Netflix.

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