





No drama político A Diplomata, de Debora Cahn, Kate Wyler (Keri Russell) é uma embaixadora que tenta equilibrar as complexas relações internacionais e um conturbado casamento com o influente Hal Wyler (Rufus Sewell).
Assim como atemporada 2, a temporada 3 (já disponível) continua explorando o universo da diplomacia entre os Estados Unidos e o Reino Unido — e, para isso, lança mão de diálogos políticos afiados e novos personagens poderosos, interessados em mudar o jogo. É aí que entra o roteirista e consultor Eli Attie (Billions, Dr. House e West Wing: Nos Bastidores do Poder).
Ex-integrante da equipe de campanha presidencial de Al Gore, Eli trabalhou nas temporadas 1, 2 e 3 de A Diplomata, dividindo seus conhecimentos sobre o universo da Casa Branca. Quando Debora precisa esclarecer dúvidas sobre o que acontece nos bastidores do poder, é Ali quem tem as respostas.
Tem interesse nesse mundo de embaixadores, integrantes do serviço de inteligência e figuras que atuam nos bastidores? Então este guia é para você. Continue a leitura para conhecer os protocolos reais e os principais cargos apresentados na temporada 2, além dos conceitos básicos sobre quem faz o quê e em benefício de quem na temporada 1.

A principal responsabilidade do vice-presidente dos EUA é estar pronto para assumir a presidência a qualquer momento caso o chefe de Estado não possa exercer o cargo. Nos Estados Unidos, o vice-presidente também acumula a função de presidente do Senado e é responsável por dar o voto de desempate em votações importantes. Além disso, o que mais faz parte de suas atribuições?
“O vice-presidente precisa comparecer a funerais e inaugurações e, de certa forma, fazer o trabalho menos valorizado do governo. Pode até parecer um cargo com muito glamour, mas na verdade não é bem assim”, explica Eli ao Tudum.
O vice-presidente também atua como conselheiro do presidente, e é por isso que Grace Penn (Allison Janney) foi uma personagem tão poderosa na temporada 2. Afinal, foi ela quem orquestrou aquele bombardeio naval sem o conhecimento do presidente Rayburn (Michael McKean).
“Grace toma decisões extremamente altruístas e arriscadas em nome daquilo que acredita ser necessário, patriótico e correto, mesmo sabendo que as coisas podem dar errado e acabar com a carreira dela. A pessoa que ocupa o cargo de vice-presidente não pode se colocar em primeiro lugar, e ela parece ter abraçado esse papel”, diz Eli.

A possibilidade de Austin Dennison (David Gyasi) se tornar primeiro-ministro após a renúncia de Nicol Trowbridge (Rory Kinnear) poderia ter sido um cenário bem real, já que o governo do Reino Unido não tem uma linha sucessória como a dos Estados Unidos.
“Os ministros do gabinete no Reino Unido são, antes de tudo, membros do Parlamento. Como líder dentro do próprio partido, Dennison teria grandes chances de assumir esse cargo”, explica Eli.
No entanto, tudo desmorona quando ele deixa de ser líder de bancada no Parlamento. “O líder é responsável por reunir votos dentro do partido (e, às vezes, até mesmo da oposição) para conseguir passar um projeto de lei”, diz Eli.

Após a explosão fatal ao fim da temporada 1, várias agências participam da investigação — incluindo o Ministério da Defesa do Reino Unido, que é o equivalente britânico ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Eli observa que, embora o sistema britânico opere segundo o princípio de que “as Forças Armadas e o país pertencem ao monarca”, tanto o órgão britânico quanto o americano devem supervisionar as aeronaves, embarcações e forças militares de seus respectivos países.
Em caso de uma grave ameaça à segurança, como um atentado envolvendo um carro-bomba, um membro do Parlamento, um diplomata e dois integrantes do serviço diplomático, o Secretário de Defesa é a pessoa que se reúne com o primeiro-ministro — da mesma forma que o Secretário de Defesa dos Estados Unidos se reuniria com o presidente.

No episódio 1 da temporada 2, Kate e Eidra Park (Ali Ahn), a chefe da estação da CIA em Londres, têm uma conversa que parece extremamente rápida e prática em comparação ao processo de montar uma sala segura na vida real. Segundo Eli, esse cômodo “é uma espécie de sala onde é impossível instalar uma escuta clandestina. É um ambiente de segurança total”.
A área precisa atender aos padrões de segurança estabelecidos pelo Diretor de Inteligência Nacional para processar, armazenar ou discutir informações sigilosas. “As conversas mais sensíveis que um embaixador pode ter devem acontecer dentro desse espaço protegido, para que ninguém tenha acesso ao que é discutido ali. Afinal, um único dado vazado pode ter consequências devastadoras”, observa Eli.

Não. O personagem é fictício, mas mercenários como Lenkov existem na vida real.
“Uma das coisas mais legais da sala de roteiristas de A Diplomata é que a gente lê e acompanha as histórias que aparecem nos noticiários e usamos diferentes elementos de cada uma delas, fazendo adaptações para a nossa história. Existem pessoas que comandam milícias, têm recursos e oferecem seus serviços a quem pagar. É uma parte sombria da política externa, e abordamos isso em diferentes momentos ao longo da série”, conta Eli.

“Em geral, o novo presidente pede a renúncia dos embaixadores nomeados por indicação política que estavam no cargo, com exceção daqueles que atuam em postos extremamente sensíveis, como na China e na Rússia. É algo que também ajuda a evitar o desgaste na função. O ideal é cumprirem um mandato completo e nada muito além disso”, diz Eli.
Como os embaixadores exercem o cargo a critério do presidente, podem ser chamados de volta a qualquer momento. Se o presidente perde a confiança em algum diplomata, como acontece com Kate e a presidente Penn no fim da temporada 2, a situação fica bastante complicada.
Basta um estalar de dedos do presidente e os embaixadores estão fora do cargo. Então, o que isso significa para Kate, que na série A Diplomata é a embaixadora dos Estados Unidos no Reino Unido? “Se eu fosse ela, estaria dando aquela atualizada no currículo”, brinca Eli.

Na série, a química entre Kate e Dennison é inegável. E isso, claro, levanta a pergunta: será que um relacionamento desses seria plausível na vida real?
“Seria uma situação tão sem precedentes que acho que não existe um protocolo específico. No entanto, certamente seria considerado inadequado. Há uma tensão incrível entre esses dois personagens, mas nada se concretiza justamente por causa dos cargos que ocupam”, explica Eli.
Ele complementa: “Eu gosto que essa tensão está sempre presente e nem precisa ser mencionada. Mas, se viesse a público, a relação entre eles geraria uma série de problemas”.

Como embaixadora dos Estados Unidos no Reino Unido, Kate representa o governo americano — ou, mais especificamente, os presidentes Rayburn e Penn — na aliança já longeva entre os dois países. O novo cargo dela pode até ter o mesmo título que o posto de embaixadora no Afeganistão, para o qual ela acreditava que seria designada, só que as duas funções são muito diferentes. “Em postos como o de Paris e Londres, é possível passar anos sem grandes atritos e precisar entrar em ação apenas em acordos comerciais mais técnicos. Não é a mesma coisa que ir para Cabul, mas Kate acaba tendo de lidar com diversas situações intensas. Além disso, um dos aspectos mais interessantes do trabalho de Kate é conciliar várias demandas ao mesmo tempo: ela precisa conquistar a confiança de pessoas que têm interesses conflitantes, convencê-las de que está certa e fazer tudo isso sem despertar ressentimentos. É um trabalho complexo”, conta Eli.

Apesar de ficar meio ocioso durante as temporadas 1 e 2, Hal, marido de Kate, já foi um diplomata de destaque. A diferença é que ele não consegue ficar muito tempo quieto. “Às vezes, Hal parece menos resistente às formalidades e mais disposto a aceitar que elas fazem parte do trabalho, enquanto Kate tende a ser mais relutante”, diz Eli. Ao desenvolver o personagem de Hal, a equipe de roteiristas foi orientada a ler sobre Richard Holbrooke, ex-embaixador já falecido dos Estados Unidos na Alemanha e diplomata com vasta experiência. O governo Obama, inclusive, chegou a honrar Richard como “um dos poucos que deixaram um legado tão marcante como representante dos Estados Unidos perante o mundo.” Segundo Eli, “o ex-embaixador era alguém disposto a tomar decisões impopulares para tentar mudar o rumo da história. Alguns diriam que, no caso de Richard Holbrooke, ele queria mudar a história e perpetuar seu legado”. Lembra um pouco o Hal, não é mesmo?
Na temporada 3, em uma reviravolta surpreendente, a presidente Penn nomeia Hal como vice-presidente.

Já no episódio 1 da temporada 1, quando Billie Appiah (Nana Mensah) revela seu plano de transformar Kate na próxima candidata à vice-presidência, fica claro que a chefe de gabinete exerce uma influência enorme. “O chefe de gabinete da Casa Branca pode ter um poder imenso, provavelmente até maior do que o de um integrante do gabinete presidencial. É só pensar nos quatro principais cargos do gabinete: Tesouro, Estado, Procuradoria-Geral e Defesa. São posições de grande destaque. Mas o chefe de gabinete é a pessoa de confiança do presidente, que pode falar direto com ele. Só pela proximidade com o presidente, dá para dizer que o chefe de gabinete tem tanto poder e influência quanto qualquer secretário de um dos principais departamentos”. Sem falar que muitos ocupantes desse cargo lidam com determinados assuntos antes mesmo de o presidente tomar conhecimento deles. “Isso também aparece na série. Parte do trabalho consiste em administrar o próprio chefe. Já aconteceu antes de chefes de gabinete acabarem tendo mais poder que o próprio presidente”, afirma Eli.

O secretário de Estado é o principal diplomata do país e o principal conselheiro do presidente em assuntos de política externa. Em tese, todos os embaixadores dos Estados Unidos ao redor do mundo respondem a ele. Mas Kate não foi nomeada pelo secretário de Estado, Miguel Ganon (Miguel Sandoval) — e ela também não costuma consultá-lo antes de tomar suas decisões. “Ela foi indicada pelo presidente, o que é muito comum também. Miguel Ganon poderia tornar a vida de Kate um inferno e talvez até acabar com a carreira dela. O que mais gosto na relação entre os dois é que ela vai evoluindo ao longo dos episódios para revelar camadas inesperadas. Não sei se daria para chamar o Miguel de adversário, pois considero que ele é como uma figura de poder que adora complicar”, explica Eli.

Na série, o primeiro-ministro Nicol Trowbridge (que, segundo Eli, compartilha algumas semelhanças com o ex-primeiro-ministro Boris Johnson) tenta conciliar seu próprio poder com a necessidade de preservar a importante aliança entre o Reino Unido e os Estados Unidos. “Toda política é local. No fim das contas, Trowbridge precisa conquistar a parcela do eleitorado britânico que mantém o partido e ele próprio no poder. Rayburn precisa fazer o mesmo nos Estados Unidos. Por mais próximos que os Estados Unidos e o Reino Unido sejam e continuem sendo, as agendas políticas internas dos dois líderes sempre serão diferentes”, explica Eli. Às vezes, presidentes e primeiros-ministros estão alinhados politicamente, como aconteceu em certa medida com Bill Clinton e Tony Blair. Em outros casos, como Joe Biden e Boris Johnson, a situação é mais complexa. “Eles vão continuar trabalhando juntos e também vão preservar a aliança, mas sempre vai existir alguma tensão porque as posições políticas são muito diferentes.”

O cargo que nos Estados Unidos recebe o nome de secretário de Estado é chamado de Secretário das Relações Exteriores no Reino Unido — e, na verdade, em quase todo o resto do mundo. “Esse título, secretário de Estado, só existe nos EUA. Nem sei direito o que significa”, brinca Eli. Na trama, o fato de que Dennison em alguns momentos parece discordar de seu chefe, o primeiro-ministro Trowbridge, não é nada fora do comum. “Na política, fazer nomeações para cargos é uma maneira de formar coalizões. Quando John Kennedy era presidente dos EUA, ele escolheu um republicano para ser seu secretário do Tesouro. Foi uma espécie de gesto de aproximação entre os partidos, pois Kennedy era democrata. A expectativa é de que essas alianças deem certo, que as pessoas sejam leais e que uma boa equipe esteja se formando, mas é muito fácil acabar se cercando de gente que pensa de forma bem diferente da sua. A composição de um governo envolve muitas alianças por conveniência”, explica Eli. E, cá entre nós, será que algum ministro das Relações Exteriores já ficou tão bem de terno quanto Dennison?

É bastante comum que o vice-chefe da missão de uma embaixada, como Stuart Hayford (Ato Essandoh), fique no cargo durante a transição de embaixadores — para a sorte de Kate. “Um embaixador pode ser nomeado e descobrir que vai ter de trabalhar com a equipe que já está lá”, explica Eli. Além disso, também acontece de o vice-chefe da missão orientar o novo embaixador nos pormenores da função. “Alguém como Stuart, que está preparando a pessoa, faria esse tipo de coisa o tempo todo. É praticamente uma exigência do cargo, e fora que também é uma função muito poderosa”, diz Eli. Mas será que um vice-chefe da missão daria palpite tanto em discussões políticas quanto na escolha de vestidos? “No fim das contas, ele é um agente político. Mas, se um belo dia alguém precisar de um discurso para um coquetel, é disso que ele vai cuidar.”

Por ser chefe da estação da CIA em Londres, Eidra Park responde à sede da agência, situada em Langley, nos EUA. Mas, em algumas situações, também trabalha em conjunto com a equipe da embaixadora (e nem estamos nem falando do romance entre Eidra e Stuart, hein!). “Eidra lida com a inteligência propriamente dita e a coleta de informações, enquanto Stuart gerencia todos os aspectos do trabalho da embaixadora. Os dois se encontram quando há questões urgentes e importantes. Existe um senso de missão compartilhada porque ambos servem ao mesmo país e à mesma administração. Eidra está tentando apoiar o trabalho da Kate porque a chefia, que fica lá do outro lado do Atlântico, está seguindo a mesma orientação das pessoas que colocaram Kate nesse cargo”, explica Eli.
Pronto, agora você já sabe de tudo. Mas lembre-se de queimar este dossiê antes que a inteligência militar britânica bata na sua porta.
As temporadas 1, 2 e 3 de A Diplomata já estão disponíveis.

































































































