





Você já deve ter ouvido falar de Debora Cahn. Já viu esse nome aparecer nos créditos de The West Wing, Homeland, Grey's Anatomy e de muitas outras séries adoradas, nas quais ela atuou como roteirista e produtora. Agora, ela assume um novo papel: o de criadora. Sua mais recente série, A Diplomata, é um drama político contemporâneo de alta tensão que explora os desafios e as complexidades dos relacionamentos de longa duração, entre países e entre pessoas. Nesta entrevista, Debora conversa com o músico e criador de podcast Hrishikesh Hirway (coapresentador do podcast The West Wing Weekly) sobre sua trajetória como roteirista, o “sonho” de trabalhar com a estrela Keri Russell, e por que os embaixadores são, na verdade, super-heróis.

Você se lembra do primeiro impulso que teve para criar esta série?
O primeiro foi quando eu estava na minha sala em The West Wing e soube que a série estava chegando ao fim. Pensei: “Quero fazer isso, mas em escala internacional”. Passei muito tempo refletindo sobre o que isso poderia significar. Aí pensei: “Talvez a história aconteça em uma embaixada”. E eu sempre soube que queria contar uma história sobre quem somos no mundo. Cerca de 10 anos depois de The West Wing, fui trabalhar em Homeland e foi ótimo.
Eu conversava com as pessoas sobre Homeland e elas diziam com frequência: “Adoro essa série, mas ela é muito intensa”. É emocionalmente intensa. Lida com temas pesados. Houve um momento em que estávamos gravando uma cena no Marrocos, no terraço de um prédio parcialmente destruído. Filmávamos uma discussão entre Claire Danes e Mandy Patinkin. Enquanto assistia à cena, pensei: “Nada dessa conversa, dessa discussão sobre o que a CIA deveria ou não fazer não poderia acontecer no set de The Crown. Estaríamos muito mais confortáveis do que estamos neste terraço, e o público também se sentiria um pouco mais à vontade. Será que existe uma forma de acrescentar um pouco desse fascínio pelas locações, para tornar tudo mais envolvente, dar um toque de fantasia?”
Naquela época, eu conhecia pessoas que faziam esse tipo de trabalho. Você está vivendo sua vida nos Estados Unidos, talvez na política, talvez trabalhando para o Departamento de Estado, e, de repente, é enviado para outro país e passa a morar em um palácio. É um palácio mesmo. E agora é ali que você vive com seus filhos adolescentes, suas meias suadas e toda a sua rotina.
Acho que essa mudança de vida tem um lado fascinante e outro assustador. Para mim, isso combinava perfeitamente com a ideia de falar sobre o papel dos Estados Unidos no mundo, como fazíamos em Homeland, mas, claro, de uma maneira diferente.
E houve um último fator decisivo para a criação da série. Em Homeland, fazíamos algo que chamávamos de “acampamento de espiões”. No início de cada temporada, passávamos uma semana em Washington, D.C., e recebíamos vários especialistas impressionantes: pessoas da política, da diplomacia, do jornalismo, além de generais e embaixadores.
Quando a primeira embaixadora entrou na sala para conversar com a gente, fiquei completamente impressionada. Ela parecia tão educada e discreta que, se alguém dissesse que era bibliotecária, eu acreditaria. Então, ela começou a contar como tinha sido sua carreira, e era de tirar o fôlego. As histórias eram incríveis, cheias de ação, muito no estilo de Carrie Mathison, e quase ninguém conhece esse lado. Quando esse trabalho é bem-feito, ele é praticamente invisível. Tudo o que ouvimos é: “Ah, embaixadores viajam para lugares elegantes e tomam champanhe”. Mas existe muito mais por trás disso. Não é exatamente um segredo, só nunca despertou muito interesse do público. E eu pensei: “Essa mulher é uma super-heroína de terninho. Ela está por aí salvando o mundo, desviando de tiros e fazendo tudo isso com uma xícara de chá de porcelana na mão”. Eu realmente não esperava por isso, mas acreditei na possibilidade.

Você faz questão de mostrar o Hal Wyler explicando a diferença entre dois tipos de embaixadores: “Nós somos mais parecidos com os embaixadores britânicos do que com os embaixadores americanos”. Você sentiu que era importante deixar isso claro logo de início?
Era importante para mim. Sinto uma responsabilidade com as pessoas que foram generosas o bastante para compartilhar suas vidas comigo e com esse universo que considero verdadeiramente heroico: o das pessoas que fazem esse trabalho. Queria explorar o que significa dedicar a vida a isso. Além disso, muitos dos aspectos dos relacionamentos que eu queria abordar faziam muito mais sentido para alguém que construiu a carreira no serviço diplomático.
Também me interessava mostrar a intensidade desse trabalho e a importância do que essas pessoas fazem quando chegam a uma região em crise ou a um lugar prestes a entrar em guerra — ou que já está em guerra e precisa de ajuda para encontrar um caminho para o fim do conflito. Era esse o tema que eu queria explorar. E, para mim, fez sentido deixar claro por que alguns embaixadores vivem essa realidade, enquanto outros correspondem mais ao estereótipo que costumamos ter em mente.
Você pode contar como surgiu a personagem de Kate Wyler?
Eu cresci em uma geração que nem sempre esperava que mulheres pudessem ocupar grandes posições de liderança. Não havia muitas mulheres nesses cargos. Talvez a gente soubesse que queria chegar lá, mas não era algo que parecia realmente possível. Então, viver minha trajetória profissional em um contexto um pouco diferente, alcançar uma posição de liderança e perceber como é a sensação de passar décadas trabalhando por um objetivo e, finalmente, alcançá-lo me fez pensar como você se sente quando finalmente ocupa esse lugar. Acho que a Kate nasceu do meu interesse em retratar essa experiência por dentro. Ela é uma personagem à flor da pele. Expõe, sem esconder, o que acho que muita gente sente o tempo todo. Faz algo importante, mas também está preocupada porque talvez tenha pisado em um chiclete ao entrar na reunião e agora ele está grudado no sapato. E fica pensando se, em algum momento daquela reunião interminável, vai conseguir olhar a sola do sapato.
Por trás da imagem de competência, calma e controle que mostramos ao mundo, todos somos profundamente e tragicamente humanos. E a diplomacia parecia o cenário perfeito para explorar isso. Colocar alguém acostumado a atuar na linha de frente em um palácio, exercendo um papel muito mais representativo, parecia a oportunidade ideal para mostrar como tudo isso é vivido por dentro.

Em que momento Keri Russell entrou para o elenco? Kate Wyler já estava definida antes da escalação?
A Keri sempre foi a escolha dos sonhos. Eu não achava que conseguiríamos tê-la na série, então fiquei muito animada quando ela aceitou participar. O que eu não imaginava era o quanto ela é parecida com a Kate, porque eu nunca tinha visto esse lado dela. Especialmente em The Americans: Rede de Espionagem, ela transmite uma força e uma elegância quase implacáveis. Parece sempre muito segura, como se isso viesse naturalmente. Mas ela também é extremamente generosa ao mostrar sua humanidade e sua vulnerabilidade. Ela está disposta a permanecer nesse lugar junto com a personagem o tempo todo e a se entregar completamente a essa experiência.
Quando a personagem começou a tomar forma, eu sabia que queria colocá-la em um universo que vive sempre na fronteira entre o drama intenso e a comédia, onde nunca dá para prever para que lado o tom vai pender. Uma coisa é dizer “Quero misturar todos esses tons” e outra é conseguir fazer isso funcionar. E a Keri é incrivelmente boa nisso. Por causa dela, consegui levar essa ideia muito mais longe do que imaginava, porque ela se entrega completamente e sabe dar vida a esses momentos como ninguém. Ela é uma comediante extraordinária, com aquela habilidade clássica do palhaço trágico de encarar o mundo com vulnerabilidade emocional e uma presença física impressionante. Ela é bailarina, então domina muito bem a fisicalidade da comédia.
Kate é uma mistura das personagens que ela interpretou em The Americans — essa espécie de super-heroína sempre muito segura — e em Felicity. Também tem um pouco da personagem dela na comédia Running Wilde, de Mitchell Hurwitz, que durou pouco, mas em que ela estava excelente.
E também em Garçonete. Ela está muito, muito engraçada. É uma atuação inteligente. É ótimo ver tudo isso reunido em uma única personagem.
A relação entre o casal Wyler, dois embaixadores, é uma parte muito importante da série. Encontrar a dupla ideal foi um processo longo?
Na nossa lista dos sonhos, os dois estavam no topo. Tivemos muita sorte. Eu sabia que Keri seria incrível para o papel de Kate e Rufus Sewell para Hal. O difícil é prever qual vai ser a química entre duas pessoas quando finalmente trabalham juntas. Isso sempre envolve um risco, porque nunca dá para saber. Tinha certeza de que os dois eram talentosos o suficiente para construir uma relação incrível, mas jamais poderia imaginar o quanto eles se divertiriam trabalhando juntos. Isso torna os longos dias de gravação muito mais leves. E também transmite naturalmente a sensação de que aqueles personagens se conhecem há muito tempo e realmente se amam. Assim, quando chega a hora de dizer “não quero ver você nunca mais”, existe um vínculo tão forte entre eles que a cena ganha muito mais força.

Um dos meus momentos favoritos é quando a Kate está conversando com Dennison (secretário de Relações Exteriores do Reino Unido) e ele não entende a forma como ela reage a uma informação que ele dá. Então, ela pergunta: “Você já fez parte da equipe?” No começo, ele nem entende a pergunta, essa ideia de fazer parte da equipe. E ela diz: “Acho que não. Passou de um cargo de liderança grande para outro”. Na hora, pensei: aqui está Debora Cahn, showrunner, criadora e roteirista-chefe, que começou a carreira como uma roteirista iniciante, assistente de sala de roteiristas, e foi crescendo na profissão. Quanto dessa cena veio diretamente da sua própria experiência?
Praticamente tudo. Tive a sorte de passar de uma série consolidada e extremamente bem-sucedida para outra, trabalhando com pessoas que já eram referências na indústria. Sempre senti que podia contribuir com o que tinha a oferecer sem carregar o peso de ser a responsável pela decisão final. A palavra final era do Aaron Sorkin, depois do John Wells, depois da Shonda Rhimes, e depois do Alex Gansa e do Terry Winter. Meu trabalho muitas vezes era difícil, mas eu sempre tinha essa válvula de escape: eu estava ajudando a realizar a visão de outra pessoa, e cabia a ela garantir que tudo funcionasse.
Depois de dez anos em Los Angeles, acabei me mudando para Nova York. Isso significou começar a trabalhar remotamente numa época em que praticamente ninguém fazia isso. Hoje parece completamente normal, mas eu já trabalhava à distância antes de isso virar algo comum na indústria da televisão. Por causa dessa mudança, passei a trabalhar em meio período. Também tive filhos e estava os criando. Continuar como integrante da equipe de roteiristas era mais fácil. Assumir o papel de showrunner era mais complicado. E tudo bem, porque eu realmente gostava do trabalho que fazia. Nesse período, vi muitas pessoas — colegas e profissionais que começaram a carreira comigo — se tornarem showrunners antes de mim. Então, observei esse processo de perto. Procurei entender o que elas faziam de diferente e o que eu fazia. Eu tinha vontade de assumir esse papel em algum momento, mas não sentia necessidade de acelerar meu passo.
E passei muito tempo pensando sobre isso antes de assumir essa função. Isso foi muito útil e me deu uma vantagem. Mas, de muitas maneiras, ainda cometi todos os erros que jurava que nunca cometeria. Por mais que eu me prepare, a sensação é de nunca estar 100% preparada.
Isso me faz pensar nas pessoas com quem você escolheu se cercar quando passou a carregar todo esse peso da responsabilidade. Um dos nomes que notei imediatamente na equipe de roteiristas foi Peter Noah, com quem você trabalhou em The West Wing.
Sim. Peter e Eli Attie também trabalham na série. Reunimos as pessoas mais inteligentes e talentosas possíveis. Adoro os textos do Peter e adorei trabalhar com ele em The West Wing. Desde aquela época, queríamos fazer outro projeto juntos. Foi ótimo ter a oportunidade de trabalhar novamente com ele e também poder contar com toda a experiência e o conhecimento que ele acumulou ao longo da carreira. Ele entende as inúmeras etapas do processo de produção, então é um verdadeiro privilégio tê-lo por perto.
E vocês continuaram amigos desde então? Afinal, já faz 17 anos que The West Wing terminou. Você e Peter Noah mantiveram essa amizade durante todo esse tempo?
Sim. Ao longo da carreira, desenvolvemos relações, e é claro que queremos trabalhar com pessoas de quem gostamos e que respeitamos. Muitas vezes, porém, o momento simplesmente não coincide. Todo mundo está trabalhando, e quando surge aquela janela em que alguém está pronto para começar um novo projeto, nem sempre as pessoas que estão no topo da sua lista dos sonhos também estão disponíveis. Desta vez, as coisas se alinharam, e sou muito, muito grata por isso.

Quero lembrar uma história que você me contou quando a entrevistei anteriormente sobre The West Wing, envolvendo o Peter Noah. Você disse: “Peter Noah foi um dos roteiristas que entrou na temporada 5. Ficamos muito amigos. Ele já trabalhava na indústria há bastante tempo e, um dia, na sala de roteiristas, disse: ‘Essa será a melhor experiência da sua carreira’. Era o meu primeiro emprego, no segundo ano desse primeiro emprego. E eu pensei: ‘Ah, para com isso. Ainda vou viver muitas experiências incríveis nesta indústria. Isso aqui é maravilhoso, eu sei que é maravilhoso, mas outras coisas boas também vão acontecer’”. Então, quem estava certo?
Ele estava certo por muitos, muitos, muitos anos. Durante muitos anos, ele estava certo. Mas, há dois anos, ele deixou de estar.
Há tantos palavrões na série que os próprios personagens comentam o quanto Kate é boca-suja.
Tem bastante mesmo. Estamos acompanhando pessoas cuja principal ferramenta de trabalho é a linguagem, e é justamente a ferramenta que elas mais precisam usar. O que me interessa é a diferença entre quem você é em cena e quem você é fora dela, e a capacidade de transitar entre essas duas versões de forma natural. Mais importante ainda: onde estão as rachaduras dos dois lados? Os palavrões são uma maneira muito rápida de comunicar isso tanto para o público quanto para os outros personagens. Eles mostram a familiaridade dessas pessoas com a expressão intensa das emoções por meio da linguagem, algo que acontece quando você xinga, e também a capacidade de não levar essas emoções para o palco, por assim dizer.
Acho que a Kate sente que suas emoções estão sempre à flor da pele, e isso aparece claramente na forma como ela fala. É interessante acompanhar a luta dela para dominar isso, canalizar essas emoções de um jeito que permita exercer seu trabalho em um cargo muito, muito mais exposto. Ela conversa com o presidente, com o secretário de Estado e com outras figuras poderosas que precisam receber muitas informações importantes em pouco tempo. Ver Kate tentando se recompor para enfrentar esses momentos é fascinante. Quanto menos controlada e menos contida ela é em seu estado natural, mais difícil é fazer essa transição — e, para mim, mais interessante é assistir a esse processo.

Perto do fim da série, Hal Wyler faz um discurso decisivo sobre a importância da diplomacia. O impacto desse discurso no público também é essencial para a trama. Isso é um desafio, porque é preciso escrever um discurso que, dentro da história, convença as pessoas. Ou seja, ele realmente precisa ter potencial para impressionar, o que é um trabalho diferente de escrever televisão. Como foi o processo de escrever esse discurso?
Essa pergunta tem duas respostas. A primeira tem a ver com um dos nossos consultores, Jonathan Powell, autor do livro Talking to Terrorists. Ele é um diplomata, negociador e especialista em resolução de conflitos extraordinário. Participou das negociações do Acordo de Belfast e vive indo de uma zona de crise para outra. Está envolvido em praticamente todos os grandes focos de tensão que você consegue imaginar e faz parte das equipes responsáveis por construir soluções. É uma pessoa realmente impressionante.
A segunda resposta é que quem escreveu o discurso foi Anna Hagen. Não fui eu.
Anna começou como minha assistente, depois virou pesquisadora e, depois, roteirista da série. Ela está exatamente no ponto da carreira em que eu estava quando comecei a escrever para The West Wing. Quando você perguntou sobre montar uma equipe, a verdade é que queremos ter pessoas como Peter Noah e Eli Attie — profissionais experientes, inteligentes, excelentes roteiristas e grandes contadores de histórias. Mas também queremos alguém que esteja chegando agora, cheio de talento e capaz de encontrar a sua voz. Em alguns aspectos, isso é até mais fácil para um roteirista mais jovem. Anna conseguiu fazer isso. Ela se tornou uma peça fundamental da série, e muito da voz dela está presente. Ter uma parceira de escrita como ela é um privilégio enorme. Então, sim, você definitivamente precisa entrevistá-la.
E eu adoro a cena em que Kate aparece com uma mancha de iogurte na calça, porque também me lembro da C.J. com uma mancha de café na blusa em “Drought Conditions”, episódio de The West Wing que você escreveu. Na hora pensei: “Será que a Deb costuma derramar comida na roupa durante reuniões?”
Sim! (risos) A resposta é: sim.































































































